Roteiros do Brasil

home » Romances e novelas » Tempos heróicos

Tempos heróicos

Jakzam Kaiser

 
Dotado da sensualidade rude de Bukowski, direto e rascante como o Pedro Juan Gutiérrez de Trilogia Suja de Havana, alucinado como um thriller de Tarantino, desesperado e verdadeiro como o biográfico Noites Felinas, cujo autor, ator e diretor Cyril Collard morreu de AIDS quatro dias antes de receber o César (o Oscar do cinema francês), Tempos heróicos, de Jakzam Kaiser, segue a linha da realidade quase ficção, ou vice-versa, uma vez que o importante aqui não é a precisão dos fatos, mas o quanto eles representam como o retrato de uma geração.
 
Ambientado na Porto Alegre dos anos 70, princípio dos 80, Tempos heróicos relata as aventuras de um jovem mulherengo, brigão, engajado politicamente, sempre disposto a caminhar sobre o fio da navalha, mas que ao mesmo tempo é um garoto perdido em meio às contradições de seu tempo, carente de norte num país em fase de transição, no qual velhas bandeiras ganhavam frescor juvenil contra o mofo de uma renitente ditadura.
 
O autor passa com invulgar competência a atmosfera de uma geração que se entregou sem limites e sem pudores a colocar em prática o bordão sexo, drogas e rock’n’roll, com pitadas de ideologia. Porto Alegre é o cenário predominante, mas as experiências vividas pelos personagens poderiam ter ocorrido em outras paragens e com outras tribos da época. Já os desnorteados sentimentos adolescentes, esses não têm tempo ou lugar. Tecnologias como o celular e a internet podem ter mudado o modo de os jovens se relacionarem, mas a angústia e o medo, tanto quanto a prepotência e o destemor da idade, não se alteraram.
 
A leitura de Tempos heróicos é rápida, mas não rasa. Sob uma camada de cinismo e crueza há um subtexto sobre o amor e outros demônios, usando-se a expressão de García Márquez. O garoto que briga de porrete e pedras na praça central da cidade e é preso por porte de drogas e atentado ao pudor em balneários turísticos ou desafia a polícia em atos contra o sistema é o mesmo que busca desesperadamente o amor, segue os conselhos do pai como a um verdadeiro guru ou fraqueja diante de bilhetes românticos.
 
O estilo simples, a narrativa fragmentada, os cortes abruptos, a ausência de uma cronologia rígida dão à obra ritmo de videoclipe, próprio de uma geração consciente de que nunca se tem tempo a perder. Que agitava e amava, conforme a canção de Renato Russo, como se não houvesse amanhã. Ao mesmo tempo, tentava entender o amanhã e acabou deixando reflexos em quem veio depois. O paradoxo é irrelevante. A jornada nunca foi pela coerência, e sim pelas cruas verdades da vida. O personagem central do livro buscava o infinito. Acabou encontrando a si mesmo.
 
Eliziário Goulart Rocha
 

Comentários

  • Dr. Rock (19/06/2007) Tempos Heróicos é um grande livro. Em tempos em que Bukowsky e Henry Miller são verdadeiras lendas, essa obra deliciosa e grandiosa passa ao leitor toda sensualidade e loucura de um grande cara, "Mister Beto", um camarada gente muito fina. Obra digna de aplausos!

     

  • Emerson Penso (13/11/2007) Este livro foi lido em praticamente dois dias, durante uma viagem: ida e retorno. Desta forma, foi possível uma imersão intensa no texto. A narrativa é ágil, permitindo a sensação de estarmos presenciando um “storyboard” de vivências e lembranças. O texto prende e instiga; uma leitura voraz e ininterrupta. A descrição do uso de drogas e bebidas é fundamental para a imersão do leitor no comportamento social do “gueto”. O leitor percebe o contexto cosmopolita de Porto Alegre daquela época e da boemia necessária às inquietações de uma cidade que instiga. Porém a descrição torna-se um pouco apologética pela forma imediatista que é feita. Estas descrições poderiam ser mais aprofundadas, conforme o personagem amadurece, mostrando a mudança da sua forma de envolvimento com o uso. Por ser tratar de um livro com um texto desinibido e ágil, é sensível esta repetição. O sexo amadurece com o personagem, não só na descrição do ato, mas da sexualidade em si e sua identificação. Expõe a característica do “macho latino” que tem o sexo como hábito para referência no grupo, e não a busca de intimidade. Esta só aparece no final da narrativa, no momento de equilíbrio. O livro ensina que as pessoas sobrevivem quando se permitem saborear suas vivências e relações. Expurga o ranço das “boas educações” e das famílias perfeitas, que na maioria das vezes não permitem que personagens viscerais e autênticos existam.

Envie seu comentário 

Comente

Contribua com seu comentário

Resenhas relacionadas

Obras relacionadas

  • Silêncio no bordel da Tia Chininha
  • Claudinha no ano da loucura

« voltar