Sabores de Santa Catarina
Degustar um bom prato, feito com carinho e arte, é uma das experiências sensoriais mais completas e inesquecíveis que o homem pode vivenciar. Sabores jamais imaginados despertam sentimentos primitivos em nosso inconsciente, trazendo à tona aromas armazenados na infância, de uma época feliz de nossas vidas ou de tempos ancestrais.
A relação transformadora entre o homem e o que ele come teve início com a criação dos primeiros utensílios feitos de pedra, osso e cerâmica e com o advento do fogo, que permitiu alterar o sabor e a consistência dos alimentos, além de conservá-los para serem consumidos posteriormente. O domínio sobre a arte de cozinhar, tempos depois, daria um novo significado ao “comer”, fazendo desse hábito cotidiano um dos principais vínculos do homem com o mundo. Dietas e hábitos alimentares estão cunhados na identidade cultural de cada um. Estão relacionados com a religião, a moral, as tradições e estabelecem um código peculiar de comunicação.
A gastronomia catarinense tem uma característica que, se não a torna única, é reveladora da sua essência e da alma da sua gente: ela foi forjada a partir de encontros.
Ao percorrer diferentes caminhos em busca da sobrevivência e de novas oportunidades, imigrantes de várias partes do mundo interagiram, mesclando e misturando costumes e sabores.
O delicioso mosaico gastronômico de Santa Catarina – variado, democrático, multicultural e saboroso – é resultado do encontro de portugueses, índios, africanos, alemães, italianos, austríacos, poloneses, ucranianos, japoneses, árabes, gaúchos...
Engana-se quem imagina encontrar em Santa Catarina pratos idênticos aos da culinária dos países de origem dos imigrantes. Não menos importante que o tempero resultante do “encontro de gentes e povos” é a boa “pitada de criatividade local”. Nem sempre os pioneiros que colonizaram essa terra tinham ao seu alcance os ingredientes já conhecidos. E, mesmo que tivessem, na maior parte das vezes eles se tornavam caros demais para os recursos parcos de quem iniciava uma nova vida. Assim, o próprio quintal tornou-se celeiro e despensa, abrindo um leque enorme de oportunidades.
Há ainda um terceiro fator que merece ser levado em conta pelos que pretendem se iniciar nas delícias da culinária catarinense: o contraste entre o litoral, com predominância da influência portuguesa, e o interior, colonizado pelas levas seguintes de imigrantes europeus.
Com o passar dos anos, a gastronomia catarinense – que nos seus primórdios era basicamente de subsistência – foi se sofisticando. As brasileiríssimas garoupas, manjubas, pescadinhas, anchovas, tainhas e corvinas começam a dividir espaço no cardápio com os peixes estrangeiros. Os moluscos e crustáceos – polvos, lulas, camarões, lagostas, mariscos e siris –, acompanhados de molhos deliciosos, vêm ganhando o respeito dos mais exigentes paladares. A ostra é um capítulo à parte, não apenas pela sua quantidade – Santa Catarina é o maior produtor nacional – mas também graças à sua qualidade superior, decorrente de águas limpas e da corrente marítima vinda da Antártida, com grande quantidade de nutrientes, que assegura o amadurecimento precoce dos moluscos.
Indiscutivelmente, o estado forjou uma gastronomia sem igual, adulta, capaz de agradar tanto os que prezam uma boa comida convencional como aqueles que não abrem mão de ousar na cozinha e experimentar o novo. Poucos lugares no mundo apresentam tamanha variação no cardápio. Tal diversidade concede ao visitante a oportunidade de conhecer cada recanto de Santa Catarina por meio de seus sabores. Uma viagem que inclui desde a mesa farta dos italianos aos prazeres culinários diferenciados do oriente. Da comida forte dos alemães à gostosa simplicidade dos caiçaras.
Também na gastronomia, Santa Catarina tem “temperos únicos” para agradar quem busca descobrir novas sensações.
Werner Zotz e Simone Garcia
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