O Manezinho que nasceu ao contrário
Leopoldo vem à luz numa noite chuvosa de 1926, um mês depois da inauguração da Ponte Hercílio Luz. Com mais de seis quilos e 60 centímetros de altura, tem o aspecto de um septuagenário: cabelos brancos, pele enrugada, barba rala, dentes amarelados. Os pais, apesar da incredulidade e do espanto, aceitam sua condição. Os médicos não conseguem diagnosticar o fenômeno e concordam em mantê-lo em segredo, longe da atenção da ciência e do olhar curioso da população supersticiosa, que poderia reagir com escárnio e medo.
O manezinho que nasceu ao contrário assombrou e encantou a infância do autor, presente nas histórias contadas pelo pai para embalar seu sono. Incapaz de esquecê-lo, Luiz Aurélio Baptista soube dar vida ao personagem, sintonizado com o realismo fantástico da literatura latino-americana. Ao ambientar o conto na sua Florianópolis natal, dando-lhe atmosfera histórica e fazendo Leopoldo interagir com personagens reais da cidade, criou uma novela divertida e surpreendente.
As ilustrações baseadas no folclore, na arquitetura e na cultura insulares enriquecem e tornam ainda mais saborosa a leitura da obra. Tanto os manezinhos quanto os novos moradores vão se identificar com a ambientação da fábula, uma entre as tantas que povoam o imaginário ilhéu – não por acaso a parte insular de Florianópolis é conhecida como Ilha da Magia, lugar de bruxas e outras criaturas encantadas.
Afinal: Como vive um sujeito que já vem ao mundo velho? A existência de Leopoldo é marcada por idas e vindas, descobertas e fugas. Uma vida às avessas!
Recém-nascido, passa tardes conversando com idosos no Mercado Público. Impedido por sua condição de manter amizades ou relacionamentos longos - – e até de tirar fotos - para que não percebam as mudanças por que passa seu corpo, aprende a ser observador atento e perspicaz da cidade e seus costumes, sua gente e sua história.
Apesar de solitário, Leopoldo é carismático, simpático, um boa praça querido por todos. Torna-se amigo de personalidades notáveis da vida local, acompanhando a passagem do tempo e as mudanças da cidade sempre de um ponto de vista privilegiado. Com a mesma facilidade faz amigos e rompe as relações, mantidas de forma superficial – em sua vida, só há lugar para coadjuvantes.
Entretanto, é sensível ao toque, à palavra amiga, ao feitiço do amor: apaixona-se por uma jornalista. Mais jovem. Ou mais velha?
Leopoldo já havia renunciado uma vez ao amor. Impossível deixar passar uma segunda chance...
O final dessa história acontece em 31 de outubro de 2003, durante o apagão que deixou Florianópolis às escuras, tornando-se muito parecida com aquela província de 1926, 77 anos antes, quando tudo começou. Sob a iluminação de velas, lanternas e lampiões a gás, Leopoldo irá se reconciliar com seu destino.
Jakzam Kaiser
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