home » Romances e novelas » O Manezinho que nasceu ao contrário
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"Uma chuvinha fina, dessas que molha sem a gente perceber, caía sobre Florianópolis. Tarde murrinha aquela de 15 de junho de 1926.
Numa das salas de espera do Hospital de Caridade, o padeiro Joel estava bastante impaciente, vigiando vez por outra a sua carroça mal estacionada no pátio, presa ao pangaré.
O velho animal, todo molhado, olhos fixos no chão, aguardava imóvel, como lhe ensinara o hábito de muitos anos da entrega de pão.
As horas passavam e Joel não sentava. Fazia caminhadas em círculos, olhando seguidas vezes os quadrinhos pintados a óleo com reproduções de paisagens da serra catarinense, que decoravam aquelas paredes altas, cobertas por uma tinta azul claro, grossa e brilhante.
[...]
A Irmã saiu por um instante para atender outro paciente. Nesse momento, quando ficaram pela primeira vez sozinhos no quarto com Leopoldo, o olhar de espanto começou a se transformar numa contemplação carinhosa. Havia certamente algo simpático naquele pequeno rosto enrugado.
Na madrugada seguinte, Joel, acostumado a acordar cedo, ficou à janela, aguardando o dia clarear.
De lá era possível ver, ao longe, a fantástica estrutura da ponte de ferro, cuja construção fora acompanhada passo-a-passo nos últimos anos pelos quarenta mil habitantes da cidade.
Apenas um mês antes havia sido inaugurada, numa tarde igualmente chuvosa. A Ponte Hercílio Luz pôs fim ao antigo sofrimento dos moradores da Ilha e do Continente, tendo que usar as balsas para a travessia de um lado a outro.
O serviço era terrível, lembrava Joel. Sequer havia cobertura suficiente nas embarcações para proteger os passageiros do sol ou da chuva. Por isso, logo se chamou Ponte da Independência, nome depois mudado, em virtude da morte de Hercílio, o idealizador da obra.
[...]
Naquela manhã, para Anice, o que parecia um sonho ruim mostrou-se pura realidade. Na cama, ao seu lado, estava o filho enorme, com uma barba rala e longos cabelos brancos. Leopoldo parecia acordado há muito tempo e seu olhar estava fixo nos raios de sol que entravam pelas frestas da janela, riscando a poeira que flutuava no ar.
[...]
Parecia uma cachoeira a chuva que via descendo por meio do retrovisor e Leopoldo resolveu, perigosamente, estacionar o seu Fiat 147 GLS zerinho, um presente de Francisco, no canteiro central da Beira-Mar. À sua frente, vários carros haviam também estacionado, esperando passar aquele temporal, comuns no final das tardes de verão. Era janeiro de 1979 e aquele jovem bonito, de cabelos longos, aparentando vinte anos, se vestia e se comportava como tal. Não havia um traço sequer que pudesse lembrar um homem com mais de cinqüenta anos.
[...]
Um dia, a professora perguntou às crianças o que gostariam de ser quando crescessem. As respostas foram as mais variadas: médico, engenheiro, professor, bombeiro. Como Leopoldo não se manifestava, a professora insistiu:
– E você? O que gostaria de ser? – Leopoldo permaneceu em completo silêncio, pensativo, como se soubesse que não haveria futuro para ele.
[...]
Márcia se reuniu à multidão que aguardava os primeiros minutos do Novo Ano na Avenida Beira-Mar. À meia-noite, Leopoldo foi colocado no colo para poder apreciar o espetáculo da queima de fogos. Porém, sob o chamado do coração, o que atraiu seu olhar, no meio de tantos sons e explosões coloridas, foi a simplicidade majestosa da Hercílio Luz, toda iluminada. O destino quis que olhasse, pela última vez, a velha ponte no mesmo ângulo e com o mesmo encantamento que a vira pela primeira vez, em 1927, quando toda a região era apenas uma praia simples, com poucas construções."