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Claudinha no ano da loucura

Alexandros Evremidis

2ª edição

Sexo, drogas e amor sem limites

Claudinha conta a história de amor entre um homem maduro e uma menina pré-adolescente. À primeira vista, o leitor pode sentir algum mal-estar ao imaginar a situação. Esqueça isso – se vítimas há nesta história não é a menina, é o homem!

Mavrô, alter ego de Alexis, trabalha numa redação de importante jornal carioca no início dos anos 70 – está, como ele mesmo diz, “infiltrado na imprensa”. Claudinha, filha da colunista social, um dia aparece na redação. Linda, aparentando mais idade do que realmente tem, não é uma menina comum. Como o leitor descobrirá, é uma predestinada, dona de irresistível carisma. Mavrô não é santo, nem faz esforço para sê-lo. Ele sente, sim, atração pela menina-criança. Mas não esboça uma iniciativa real para consumar seu desejo – qualquer intenção maliciosa se mantém no plano das ideias.
 
Logo descobrimos que Claudinha não é menina-criança; é menina-mulher de personalidade forte, voluntariosa e com iniciativa, que sabe coisas surpreendentes para sua idade e possui vontades de mulher adulta. Imagine uma menina assim, mulher em corpo de ninfeta, bater à sua porta declarando-se apaixonada, decidida a seduzi-lo... Você resistiria? Mavrô sucumbe sem esboçar reação; ele nunca teve chance.

Mavrô, ou Alexis, também não é um homem comum. Com uma história de vida rara, tem um espírito livre. Sem as amarras de preconceitos e freios civilizatórios que assombrariam um homem “normal”, entrega-se sem reservas a esse amor.

Antes de Claudinha no ano da loucura, Alexis já publicara dois romances, ambos em 1974. Em Adeus Grécia, ele conta sua infância em Mavrodendri, na Macedônia, onde comeu o pão que o diabo amassou. Em Melissa, desnuda seu romance com Elke Maravilha, de quem foi o primeiro marido. Em ambos, expõe vísceras e alma, sem condescendências.

Como disse Paulo Hecker Filho, no prefácio da primeira edição de Claudinha, os três livros compõem uma obra extraordinária, de alcance universal. “Um desses retratos sem retoques da vida que surgem de raro em raro na literatura e permanecem imunes ao tempo. Alexis não apenas diz a verdade, mas toda a verdade sobre si mesmo. Uma comunicação assim tão íntima com o real já implica uma vitalidade superior, um talento incomum. Talento que se completa na expressão pela fina e sempre justa intuição narrativa. Não cansa nunca nem é insuficiente. Às vezes evoca um ambiente, uma cena, um perfil numa frase, outras, num longo capítulo, e nem sinal de palha seca de retórica, cada palavra arde. Sua obra constitui uma das mais sinceras, e livres de preconceitos – dos verbais aos sexuais –, autobiografias que existem. Um dos mais inestimáveis presentes que as letras brasileiras já ganharam de um estrangeiro.”

O livro é dividido em três partes: 1972, 1973, 1974. Na primeira, Mavrô e Claudinha se encontram e trocam bilhetinhos inocentes, que são lidos e entregues pela mãe de Clau; termina quando ela o procura em seu apartamento e se declara. O episódio coincide com a censura de artigos dele no jornal. Mavrô repassa sua vida, decide entrar em licença e se tranca em seu apartamento para escrever uma tetralogia chamada Viagem ao Mundo dos Livros.

Aqui, ficção e realidade se confundem. Alexis realmente sofreu censura e foi detido pelo DOPS, nessa época, por causa de artigos polêmicos em defesa da revolução sexual, do orgasmo, das drogas, do aborto, da liberação das mulheres, etc. O estopim foi um texto que “exigia” a liberação do (proibido) filme Sopro no Coração, de Louis Malle (a história incestuosa da mãe com o filho doente). Já no fim dos anos 70, sofreria nova censura por causa de obra exposta no Salão de Verão do MAM – grandes painéis com fotos de mulheres nuas colocados num “gramado” de maconha. 

Quanto à tetralogia, ele realmente a escreveu. O primeiro volume é Adeus Grécia, que trata da infância do homem em busca do amor. O segundo, Melissa, fala sobre o amor encontrado e vivido. O terceiro, Claudinha, sobre a infância da mulher em busca do amor (contraponto ao primeiro volume). O quarto, ainda inédito, é A Mãe do Filho, e fala sobre o filho como conseqüência natural dos três anteriores e sua problemática.
 
Na segunda e terceira parte de Claudinha no ano da loucura, toda a ação se desenrola dentro do apartamento de Mavrô. Lá fora, o Brasil vive os anos de chumbo. Dentro do apê, desbunde total, não sem alguma paranoia, afinal o relacionamento adulto-lolita descamba para a suruba ampla geral e irrestrita, com participação de uma namorada de Alexis (adulta), filha de um general do Exército, que também se deixa seduzir pelos encantos da ninfeta, e alguns amigos de escola de Clau, que buscam no apê refúgio para o uso de drogas – da porta para dentro, território livre, onde tudo acontece. Em alguns momentos de lucidez, Mavrô se questiona sobre a possibilidade de “pintar sujeira”...

A história não tem final feliz, alguns tombam pelo caminho. O livre-arbítrio tem um preço – e alguns pagam caro por sua participação nessa aventura. Mas o final é de somenos importância – o que importa, realmente, é o seu desenrolar. O conteúdo dos diálogos entre homem e ninfeta, as reminiscências de Mavrô sobre suas relações familiares, os pensamentos sobre o que acontece em sua vida, a sua disposição em viver no fio da navalha e se entregar ao amor sem limites, indo às últimas consequências, as reflexões sobre a natureza humana e a sociedade de consumo são esplêndidas. Como diz Mavrô: “Basta soprar o pó que nos cobre e descobriremos o selvagem”.

Claudinha no ano da loucura tem sexo e drogas, mas vai muito além: tem verdade, apresentada de forma honesta, sem concessões ou complacência – não há lugar para ressaca moral.

Alguns, ao terminar a leitura, poderão pensar que Mavrô, ou Alexis, o Grego, é um sortudo, que comeu muitas e belas mulheres na vida. É uma verdade. Outra verdade é que Alexis sofreu reveses que teriam destruído, física e mentalmente, um homem comum – como o boxeador que vai a nocaute e beija a lona. É nessa hora que se conhece a essência do ser humano – Alexis é daquela cepa de lutadores de fibra que, mesmo usando as cordas para se levantar, ainda grogue, engole o orgulho, lambe o sangue das feridas e volta para o centro do ringue, porque ali é o seu lugar. Sempre inteiro, nunca pela metade, pois o meio-termo é a dimensão dos medíocres.

Alexandros Evremidis, às vésperas de completar 67 anos, é personagem de um extraordinário romance: sua própria vida. Seu papel é equilibrar-se na gangorra das emoções, seguir em frente com o vento no rosto e viver com a intensidade de uma supernova.

Jakzam Kaiser

Comentários

  • Tiago (20/06/2007) Li este livro. É demais! Abraço, Tiago Vaz

     

  • Emanuel Mattos (21/06/2007) Grande livro! Não conhecia nada dele e me encantou a naturalidade com que Evremidis escreve. É como alguém sentado ao teu lado, contando uma história tão fascinante que você não sente o tempo passar. O cara é gênio!

     

  • Stefani (05/06/2008) Claudinha é sem dúvida um livro que não pode sair de circulação. É uma estória e HISTÓRIA. É livro de cabeceira pra sempre. Impossível não embarcar nesse livro de alta qualidade de edição e principlamente em sua jornada.

     

  • Cláudia (31/01/2010) Li este livro, quando tinha 13 anos. Não prestou...rs... Ontem encontrei o "meu Mavrô", 16 anos mais velho que eu, que leu o livro na mesma época. 24 anos depois, rimos muito de tudo.

     

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