Trechos
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“A dor tinha cheiro de vinagre e óleo diesel e sabor de coração de galinha com Bloody Mary. Eu não via Ofélia, Salamandra, o escocês ou o tronco de carvalho. Só via meu próprio sangue e nomes em ordem alfabética: Adélia, Adelina, Ademar, Ademilton, Ademir. Caíra da cama, havia derrubado o criado mudo e a lista telefônica caiu sobre meu rosto cortando meu supercílio e enchendo meu nariz de poeira envelhecida. Espirrei, havia dormido de luz acesa. Cambaleante, caminhei em direção ao toalete, urinei e improvisei um curativo na testa, esquecendo-me de lavar as mãos entre um ato e outro. ”
“Aos poucos cessava o fluxo de pensamentos, minha cabeça latejava como se houvessem posto meu cérebro no microondas. Eram sete horas da manhã, o sono voltava a se manifestar com força. Antes de adormecer novamente encontrei espaço para mais uma idéia (fixa): aquele caso pedia um bigode à Poirot, senão por uma questão de auto-estima ao menos por uma questão de marketing. Slogans baratos, a imagem subverte a mensagem, slogans baratos lembrando manifestações estudantis. Empoeirados livros de marketing, velhas leis de mercado.”
“Pela primeira vez, havia usado a palavra no sentido atribuído pelos membros da ORNITORRINCO. O efeito é impressionante, cunhado como pronome de tratamento carrega uma riqueza de significados só compreendidos com seu uso. Palavras absolutamente comuns inseridas em outro contexto se transformam em brinquedos lingüísticos, piadas de riso de canto de lábio. Meu interlocutor, porém, não ria ou mesmo demonstrava qualquer emoção com os músculos da face, pronunciando numa apatia um tanto artificial as sílabas de uma frase banal.”
“O dono do banheiro tirou o sorriso babaca do rosto e fechou a cara chupada de ex-gordo, teria que comprar muitos cremes coloridos para curar as rugas adquiridas naquele dia. Ele já não conseguia disfarçar sua insatisfação com a nossa demorada presença, nem sua frustração por não conseguir fazer Salamandra enxergar o óbvio e ganhar alguns pontos com o chefe. Era um free-lance com cacoetes de subordinado, tipinho risível. A raiva que sentia transparecia em suas palavras cordiais.”
“A freira ruiva bebeu o restante de seu drink colorido num gole rápido enquanto balançava a cabeça de um modo estupidamente forte, causando a impressão de que a qualquer momento o líquido que ela bebia fosse grotescamente escorrer pelas suas orelhas ou por uma de suas narinas. Ela entrelaçou seus dedos nos dedos do senhor de falsos olhos verdes e cabelo acaju e puxou o velho para a pista de dança, executando movimentos esquisitos que ele pateticamente tentava plagiar. Eu tentei tocá-la, roçar seu braço, dizer alguma bobagem engraçada que atraísse sua mente bêbada. Irritado, estava prestes a vomitar palavras de protesto, mas o sentido literal estava tão apressado que atropelou a metáfora no esôfago, chegando primeiro à minha boca.”