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A Notícia - AEconomia, 09/12/2007
Claudio Loetz
Natural de Blumenau, o ministro conselheiro da Embaixada do Brasil em Berlim, na Alemanha, Roberto Colin, lançou o livro “Rússia – o Ressurgimento da Grande Potência”. O lançamento ocorreu em Joinville, na quinta-feira, e em Florianópolis, na sexta.
O jornal A Notícia conversou com o diplomata brasileiro, que por oito anos serviu a Embaixada do Brasil em Moscou. Na obra, Colin faz uma análise do papel da Rússia no mundo desde o czar Pedro, o Grande. Avalia a burocracia do poder passando pelos ex-líderes soviéticos Mikhail Gorbachev e Boris Yeltsin e pelo fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Fala, ainda, sobre a transição para abordar a nova correlação de forças políticas que o país joga no xadrez político global com o mundo capitalista na era do presidente Vladimir Putin.
A Notícia – O senhor diz que a Rússia ressurge como potência no cenário global. O que a torna atrativa para investidores estrangeiros?
Roberto Colin – O tamanho do mercado, com cerca de 140 milhões de habitantes. A Rússia cresce 7% ao ano e tende a continuar sua expansão. Isso não acontece só por causa do grande volume de negócios gerado a partir do gás e do petróleo, como se poderia pensar. O perfil do povo mudou. O russo é consumidor. Viaja mais, nunca foi tão rico e livre. A Rússia tem o terceiro maior número de milionários do mundo.
AN – Do que se queixa a população?
Colin – Ah, dos preços altos, da inflação, agora já menos elevada.
AN – Reclama-se da democracia?
Colin – Não, até porque ninguém imagina que o país vá ter um processo democrático nos moldes do que existe nos Estados Unidos e na Inglaterra. Temos de lembrar que a Rússia viveu dezenas de anos sob o czarismo e outras dezenas de anos sob o comunismo. Então, tem suas características próprias.
AN – Como surgiu o livro?
Colin – Vivi oito anos na Rússia como diplomata brasileiro em Moscou (entre 1989 e 1994 e, num outro momento, de 1998 a 2001). Então, achei que o que era tese deveria se tornar uma publicação mais abrangente. Teve também uma motivação política. Vi muita coisa sendo escrita sobre a Rússia com abordagem negativa, que me parecia equivocada. A obra quer mostrar que a Rússia é um país de oportunidades. O livro estava pronto em outubro. O governador (de Santa Catarina) Luiz Henrique da Silveira sugeriu lançamento em evento com a formatura da Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, em Joinville. Foi o que fizemos.
AN – Onde os investidores estrangeiros podem ganhar dinheiro na Rússia?
Colin – Sem dúvida, os dois melhores exemplos estão nas áreas de alimentos e da construção civil. Moscou assiste a um extraordinário boom imobiliário.
AN – A pauta dos negócios brasileiros é muito concentrada...
Colin – Sim, principalmente em produtos primários. E há um superávit comercial muito grande a favor do Brasil. Seria desejável equilibrar isso.
AN – O que Santa Catarina tem a ganhar com a aproximação com a Rússia?
Colin – A Rússia é muito menos complexa do que a Índia e a China. Todos só falam desses dois países e ninguém se lembra da Rússia. A Rússia é um país cristão, com peculiaridades seculares, é verdade. Mas o importante: é europeu. A cultura asiática, a religião e costumes são mais difíceis para o ocidental assimilar.
AN – Que papel exerce o governo catarinense neste ambiente de aproximação?
Colin – O governador Luiz Henrique (a quem Colin serviu como secretário de Articulação Internacional entre 2003 e 2006) abriu caminhos importantes. Foi diversas vezes a Moscou. Atuou fortemente no campo da cultura. Trouxe a Escola do Teatro Bolshoi para Joinville, por exemplo. LHS tornou-se conhecido e abriu canais. Agora, negócios são coisas que a iniciativa privada deve promover. Os resultados, necessariamente, devem ser esperados a longo prazo.
AN – A corrupção dificulta os negócios por lá?
Colin – O mercado corrupto é elemento que cria problemas, sim. As análises de negócios passam a ser mais cuidadosas. A situação melhorou. Para se perceber como o país se preocupa com a questão, uma informação é essencial: o primeiro-ministro da Rússia veio da polícia que investiga fraudes financeiras. Algo como o que é a Receita Federal do Brasil.
AN – Qual é o tamanho da economia russa?
Colin – O produto interno bruto (PIB – medida de riquezas) é ligeiramente inferior ao do Brasil, com renda per capita maior e mais bem distribuída, menos desigual.
AN – A Rússia vai entrar na União Européia?
Colin – Não! Nem a Rússia nem os países da União Européia têm interesse nisso. O tamanho da Rússia é demasiado. E assusta. Poderia se tornar exageradamente hegemônica no contexto europeu.
AN – Que papel tem o presidente Vladimir Putin nas transformações na Rússia?
Colin – A estabilidade do processo da Rússia depende, em grande medida, de Putin. Ele tem conseguido cumprir uma agenda difícil. A da mudança de situações anteriormente negativas. Reverte o colapso econômico e promove a reversão da irrelevância da Rússia no cenário global e altera a noção do “vale-tudo”.