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Viagem fantástica pelo Rio Amazonas

O Liberal, 10/08/2005
Aline Monteiro

Livro do escritor Werner Zotz, lançado hoje em São Paulo, narra, em texto e belas imagens, a viagem sentimental pelo Rio Amazonas, que desde a infância povoa sua imaginação.

Desde a adolescência, o escritor Werner Zotz era fascinado pela Amazônia. Da região povoada de perigos insondáveis, como índios caçadores de cabeça, descrita no “Inferno Verde”, que ele assistiu em matinê, às imagens mais reais lidas nos livros de escritores viajantes como José Mauro de Vasconcelos e Francisco de Barros Júnior, a curiosidade foi sendo aguçada e ele resolveu fazer sua própria expedição à floresta. Depois de algumas visitas isoladas, lançou-se à aventura de seguir o curso do Rio Amazonas, observando e interagindo com as populações ao longo do rio. O projeto, abraçado de pronto pela mulher de Werner, Betty, uma paraense de Benfica, levou os dois, de barco em barco, de Belém até Tabatinga, cidade do Amazonas já na fronteira com o Peru, e rendeu o livro “Aventura no Rio Amazonas – Viagem Fantástica do Marajó a Tabatinga”, que será lançado em São Paulo hoje, dando seqüência à série de livros de viagem da editora Letras Brasileiras.

Aviso aos navegantes: o título não é gratuito. Logo na abertura do livro, Werner, jornalista e autor premiado de livros infanto-juvenis, evoca a orientação da National Geografic aos seus fotógrafos e lembra que “aventurar-se não é o mesmo que sair de férias”. “Nossa idéia nessa série foi fugir dos roteiros tradicionais, mas mostrando viagens que possam ser realizadas por qualquer um com o mínimo de espírito de aventura”, explica o escritor, que já atuava como editor de livros de turismo na Letras Brasileiras e já lançou pela editora o livro “Aventura no Fim do Mundo – Viagem ao Extremo-Sul das Américas”.
Apesar de seguir em barcos de linha, com grupos com interesses variados, deixa claro que seu propósito ali não é turístico. Recolhe, metodicamente, em seu caderno de notas devidamente protegido em saco plástico, informações sobre as pessoas, depoimentos, história e cotidiano dos lugares visitados. Fazendo um misto de diário de bordo e guia de viagem, Werner leva o leitor consigo pelos caminhos do rio-mar, num ritmo de quem, após chegar em casa, conta as experiências aos amigos. Guiado também pelas interferências permeadas de reminiscências feitas por Betty pela generosa seleção de fotos feitas pelo próprio escritor, o leitor segue ávido a curso do rio e desembarca em Soure, Salvaterra, Almerim até os remotos territórios de Tefé ou Mamirauá, no Amazonas. Junto com o casal, também vai fazendo amizades no percurso. Encontra pesquisadores, jornalistas, seringueiros, vendedores e, aos poucos, vai apreendendo que “o tempo da Amazônia é regido pelo ciclo das águas”.

Aos que nunca estiveram por aqui, o livro traz informações valiosas. Aos que já conhecem de perto os lugares descritos, traz a perspectiva nova do olhar do estrangeiro. “Nós, do Sul e Sudeste, temos relativo conhecimento sobre as regiões Sul, Sudeste e Nordeste. Mas conhecemos muito pouco do Norte e do Centro-Oeste. Por exemplo, a idéia de pobreza que temos lá é diferente da visão que se tem quando se entra pelo interior da Amazônia. Ainda há muitos mitos sobre a região, como o de que pessoas do Sul e Sudeste é que trabalham. Também existem menos americanos do que a mítica e a presença das forças armadas é muito forte e não como algo opressivo. O exército, principalmente, é a referência de cidadania para essas populações. São os militares que ajudam as pessoas a tirar carteira de identidade, que garantem atendimento médico, dentista. As pessoas se dão muito bem com quem usa farda”.

Outra experiência que chamou a atenção do escritor foi a do Instituto Mamirauá, uma Organização Não Governamental que atende as comunidades no entorno do lago Mamirauá, próximo a Tefé. “É uma experiência fantástica, um modelo para o Brasil de como se pode promover o desenvolvimento de uma comunidade. O instituto foi criado por um pesquisador de Belém que foi estudar por lá um macaco da região e acabou criando o instituto baseado em Tefé e que promove uma série de ações de geração de renda, como projetos de ecoturismo e de produção de artesanato com sementes regionais. Hoje, os colares feitos em Mamirauá são vendidos nos aeroportos de todo o Brasil”.

Werner Zotz já tinha estado em alguns trechos da Amazônia. Conhecia o sul do Pará, as regiões dos rios Araguaia e Xingu, e Manaus. Também foi na região, num passeio de barco, que ele conheceu a mulher, professora ligada ao projeto Alfabetização Solidária que morava em Santos, mas estava trabalhando com as comunidades do Alto Juruá, no Amazonas. Mas algumas das lembranças não vieram das viagens interiores, e sim do que Zotz já tinha lido nos livros. “Fiquei surpreso ao perceber que o que vi no Estreito e Breves era exatamente a mesma cena descrita pelo Francisco de Barros Júnior na década de 50: as crianças, o abandono geral, a ausência do Estado. Esses escritores já tinham me dado uma idéia mais real da Amazônia do que o Inferno Verde que vi quando criança. Mas a viagem me ajudou a solidificar algumas coisas”.

Nem por isso o escritor voltou para Florianópolis com idéias acabadas sobre a região Norte. Depois de um mês navegando as águas caudalosas do Amazonas, diz que ainda está se questionando sobre algumas coisas. “Ainda estou pensando, por exemplo, na fixação que as pessoas daí têm por praia. Belém se vende como a porta de entrada da Amazônia, mas não se tem na cidade nenhum tipo de programa voltado para a floresta. No entorno de Manaus, você tem uma série de hotéis de selva e programas com trilhas, etc. Em Belém, o que se tem é um passeio de barco pela orla e outro para ver a revoada de papagaios numa das ilhas. Você só vai encontrar algo parecido com Manaus em Alter do Chão”.
Por ora, o livro será distribuído no Sul e Sudeste. “Ainda não temos distribuidor em Belém, mas a partir do lançamento deste livro, vamos ter que ver um modo da editora chegar aí e em Manaus”.

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