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Zero Hora - Cinema, 14/07/2008
Roger Lerina
"Cenas de um Casamento Sueco" chega em livro
Um dos maiores mestres do cinema completaria hoje 90 anos. Consagrado com o "cineasta da alma", o diretor sueco Ingmar Bergman (1918 - 2007) deixou como testamento artístico o telefilme Saraband (2003), no qual retoma 30 anos depois os personagens da série de sucesso Cenas de um Casamento Sueco (1973).
O roteiro da adaptação para o cinema da telessérie que fez muita gente repensar a vida a dois é relançado agora em livro.
Desde o final dos anos 50, Bergman já rodava filmes especialmente para a TV sueca - a constância dos primeiros planos nos rostos dos personagens e a valorização das locações em cenários interiores naturalmente aproximavam o estilo do realizador à linguagem televisiva. No começo dos anos 70, Bergman escreveu o roteiro de uma minissérie para a televisão, em que acompanhava durante alguns anos o cotidiano de um típico casal intelectual burguês sueco, da aparente felicidade da vida conjugal à brusca separação e posterior reaproximação, passando pelas agressões e dilaceramentos mútuos durante a deterioração do relacionamento.
Bergman levou três meses escrevendo o roteiro sobre o casamento de Johan e Marianne - cujo resultado a mulher do diretor achou que não interessaria a ninguém, devido ao caráter extremamente íntimo da história. Ingrid estava enganada: Cenas de um Casamento Sueco transformou-se no maior sucesso de público da carreira de Bergman até então. A produção tornou-se mesmo um fenômeno social - depois de sua exibição na TV, o número de divórcios na Suécia teria aumentado substancialmente. Mais: Bergman passou a ser abordado na rua por pessoas pedindo conselhos matrimoniais, a ponto de ter que mudar o número de telefone. A partir do sucesso da série na Escandinávia, foi encomendada a Bergman uma versão para o cinema, que foi exibida internacionalmente.
O roteiro para cinema de Cenas de um Casamento Sueco ganha nova tradução e edição pela Letras Brasileiras, com apresentação do crítico de cinema Luiz Carlos Merten. O próprio Bergman não colocava muita fé nessa versão cinematográfica - a distribuidora Versátil lançou em DVD a íntegra da minissérie em seis capítulos, com cinco horas de duração. Alegava, não totalmente sem razão, que a redução para 168 minutos tornaria a história incompreensível - o longa, no entanto, levou o Globo de Ouro de filme estrangeiro. As cenas do casamento do professor universitário Johan (Erland Josephson, grande ator e amigo íntimo de Bergman) e a advogada especializada em divórcios Marianne (Liv Ullmann, mãe de uma filha de Bergman) são divididas em seis capítulos: Pureza e Pânico, A Arte de Varrer para Baixo do Tapete, Paula, Vale de Lágrimas, Os Analfabetos e No Meio da Noite numa Casa Escura em Algum Lugar do Mundo. Como Bergman escreveu no prefácio do livro, Cenas de um Casamento Sueco trata de "pessoas emocionalmente analfabetas", que "mostram-se tensos, felizes, tolos, bons, inteligentes, bem-comportados, dedicados, zangados, tolerantes, sentimentais, insuportáveis, amorosos - em resumo, seres humanos. Tudo de uma vez só".