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Comunique-se, 22/07/2008
Antonio Brasil
“Só havia incertezas, dificuldades, o desconhecido à vista. O que mais um casal de repórteres poderia desejar?”
Em tempos de Olimpíadas e submetidos a uma verdadeira avalanche de notícias e informações desencontradas sobre uma país tão diverso e distante, gostaria de recomendar "Laowai (Estrangeiro) - História de Uma Repórter Brasileira na China" da jornalista Sonia Bridi pela Editora Letras Brasileiras.
O livro descreve os dois anos (2005 e 2006) em que ela atuou como correspondente internacional da TV Globo em Pequim, ao lado do repórter cinematográfico Paulo Zero, 50, responsável pelas fotos do livro.
Com narrativa fluente, agradável e observações bem humoradas, “Laowai” é um livro bom de ler. Ótimo programa para as férias de Julho. A obra é feita sob medida para quem gosta de “viajar” pelos mistérios da vida em estranhos países orientais como a China, Coréia do Sul, Índia e Vietnã.
E sobre o seu trabalho, a própria Sonia acrescenta: “um correspondente deve relatar a vida dos brasileiros fora do Brasil, mas o papel primordial é levar o conhecimento do mundo aos brasileiros que não têm oportunidade de conhecer outros países”.
Tudo a ver.
Além de revelar os segredos de outros países, Laowai também nos mostra as dificuldades e os “truques” utilizados pelos jornalistas para evitar a ação de censores do governo durante grandes coberturas internacionais.
Quando governo tenta fazer TV e controlar correspondentes estrangeiros o resultado é sempre desastroso.
Como bem sabemos, tanto na China quanto no Brasil, é dura a vida dos correspondentes estrangeiros. Sempre ameaçado de serem expulsos ao tentar dizer a verdade.
Gostei de ler é aprendi muito sobre a vida no país das grandes mudanças. A destacar as notas de roda-pé sobre a história e cultura chinesas. São simplesmente preciosas. Mas além de aprender sobre passado e o futuro da China, também pude recordar o passado da TV brasileira.
O relato de Sonia Bridi nos remete ao trabalho pioneiro na cobertura internacional para TV de outros grandes jornalistas como a Sandra Passarinho. Nos anos 70, ainda muito jovem, foi a primeira correspondente da TV brasileira baseada em Londres. Bons tempos!
Hoje, Sonia Bridi e Paulo Zero também contribuem para a história da TV brasileira. Eles foram os primeiros correspondentes da TV brasileira na China. Nossos olhos e ouvidos no oriente e no futuro.
AntropojornalismoNeste novo livro, Sonia complementa o seu bom e discreto jornalismo de TV com um relato detalhado sobre o processo pessoal de imersão na vida e na cultura chinesas.
“A partir dos acontecimentos do cotidiano como alugar apartamento, liberar equipamentos na aduana, fazer exame para obter carteira de motorista, encontrar escola para o filho, descobrir onde comprar roupas para o seu tamanho ou abrir conta em banco, Sônia vai construindo um retrato pitoresco, emocionado e extremamente requintado da sociedade chinesa”.
Nessa narrativa tão particular, Sonia também avança conceitos do jornalismo ao se aprofundar em um relato mais próximo da Antropologia e da pesquisa etnográfica. Sonia é uma Laowai, uma jornalista estrangeira com olhar de antropóloga.
Sua obra é mais uma contribuição importante para a consolidação do Antropojornalismo: uma nova área de conhecimento, a interface entre a agilidade do jornalismo e a profundidade da Antropologia.
Com olhar bem humorado de jornalistas e a perspicácia dos etnógrafos, Sonia descreve o choque cultural:
“Carne de cachorro, e de outros bichos estranhos, é consumida no Sul do país, na província do Cantão. Os cantoneses são aqueles que, segundo um ditado muito popular, ‘comem tudo o que voa e não é avião, o que tem pernas e não é mesa, o que se arrasta e não é trem, o que está na água e não é navio”.
Caso de amor Mas Laowai não é só pesquisa, humor e história.
O livro também é uma bela história de amor. Amor pelo jornalismo, pela aventura, mas acima de tudo, o amor entre dois jornalistas – Sonia e Paulo são casados.
Os dois se conheceram no escritório da TV Globo de Nova York, há 12 anos. "Havia sido transferida de Londres contra a minha vontade. O Paulo me acompanhou na minha primeira matéria e vimos que tínhamos muitas afinidades", diz Bridi.
Com o fim recente de seus respectivos casamentos, logo resolveram compartilhar não só o trabalho, como também a vida. "Aprendi a respeitar o destino", fala a jornalista.
Eles partiram para a aventura chinesa com muito desprendimento, coragem e um filho pequeno, Pedro de seis anos. Quanta coragem!
O livro nos mostra as dificuldades da cobertura internacional, mas também revela os desafios de um casal de jornalistas brasileiros vivendo no exterior e tentando manter uma vida familiar, um mínimo de normalidade em um mundo tão estranho e adverso.
E é a Sonia que descreve a vida com o jornalismo e o amor: “Trabalhar com o marido, viajar junto, é um privilégio que poucas pessoas têm nessa profissão tão permeada de casos de separação, pois o outro cônjuge, geralmente, não suporta o ritmo de vida imposto pelo jornalista”.
Corrupção e censura
A “nada mole” vida dos correspondentes internacionais. Mas em tempos de vacas magras e muito competição no jornalismo de TV, as aventuras de Sonia Bridi e Paulo Zero também representam o fim de uma era. Não creio que no futuro próximo teremos correspondentes internacionais com tantos “privilégios”. Sonia descreve a dificuldade para contratar motoristas e tradutores chineses e descreve as desventuras de sua “babá”, a Fafá, uma piauiense trazida pela família para viver na China. Os bons tempos dos correspondentes certamente estão acabando.
Hoje, poucas televisões ainda podem bancar equipes de jornalistas com repórteres e cinegrafistas em outros países nessa “nada mole vida” de correspondente internacional. No futuro próximo ou no presente mais realista, o novo correspondente internacional faz tudo e trabalha sozinho. É um freelancer com pouquíssimos privilégios e mordomias. É um jornalista que precisa saber pautar, produzir e “vender” suas próprias matérias.
Manual do jornalista estrangeiro
A leitura de Laowai nos mostra que a China é um país muito estranho. Muito estranho. Mas também é um país muito parecido com o Brasil. Quase tudo funciona na base do suborno e da propina. O relato de Sonia sobre as dificuldades para realizar a primeira transmissão ao vivo da China para o Brasil pela televisão estatal chinesa é ao mesmo tempo esclarecedor e um alerta para todos nós brasileiros.
“A China é uma ditadura, uma país fechado que controla a imprensa – nacional e estrangeira – com mão de ferro”, afirma Sonia.
Segundo a entrevista recente para a Folha de São Paulo, Sonia Bridi e Paulo Zero esclarecem as dificuldades para a cobertura jornalística e suas tentativa para evitar o controle do governo:
“Em 2005, o 'Manual do Jornalista Estrangeiro na China' tinha a lista de cidades que poderiam ou não ser visitadas. O controlador de Pequim sempre precisava saber de nossas viagens, bem como deveria ser avisado o controlador da cidade para onde íamos. A delegacia local é avisada sempre que um jornalista se hospeda no hotel. Você está sempre sob os olhos de alguém”.
E acrescenta: “Eles censuram as fontes, o acesso. Além de cobrar para fazermos imagens de qualquer monumento... Se você consegue romper o acesso, eles punem quem falou com você, para criar a cultura do medo: se você falar com o laowai [estrangeiro] você será punido. Essa é a mensagem”.
“Lá você não abre Wikipedia, não abre blog... Vai entrar num site ou no MSN e está bloqueado. O Google não existia para a gente, já que só tínhamos acesso ao Google em chinês, o que não adiantava pra nada”.
Controlar correspondentes
Para quem ainda duvida dos perigos da intromissão do governo no trabalho dos correspondentes estrangeiros, (vocês ainda se lembram da quase expulsão do Larry Rohter do New York Times aqui no Brasil?) destaco este diálogo entre um alto funcionário da empresa estatal chinesa encarregada da transmissão de satélite e a jornalista da Globo:
“A senhora sabe que para poder fazer essa transmissão teremos alguns gastos – diz o mais alto, escancarando os dentes amarelos de chá...
Geralmente nós cobramos uma taxa de autorização de imagem de quem vem aqui fazer documentários – prossegue ele...
O chinês ri, com muito mais segurança do que eu:
- Hahahahahaha! Por isso sugerimos que vocês contribuam com 50 mil. Dez mil, em espécie, amanhã de manhã, antes de começar a trabalhar – diz ele, agora sério, como quem encerra a conversa...
Depois, quase não durmo de raiva. Por ter sido submetida a esse achaque...
Respiramos fundo e vamos fazer nosso pedacinho de história. ...
é apenas a segunda vez que uma transmissão desse tipo é feita a partir da China”.
Na China ou no Brasil, essa é a “nada mole” vida dos correspondentes estrangeiros.
O livro da Sonia Bridi além de bom jornalismo é leitura obrigatória para quem ainda acredita na importância da cobertura internacional na TV e da liberdade de imprensa.
Comprova que governos não deveriam se envolver com jornalismo e televisão.
É perda de tempo, dinheiro e... não funciona.