home » Laowai » resenha » Jornalista Sônia Bridi relata em livro suas experiências na China
Correio Braziliense - Divirta-se, 26/07/2008
Arthur H. Herdy
China está em alta e não só pelas Olimpíadas deste ano, sediadas na capital, Pequim. O crescimento assustador da economia no país mais populoso do mundo transformou a nação comunista em uma das maiores potências do planeta. No entanto, reserva grandes surpresas – a milenar cultura oriental, a culinária exótica, as belezas naturais e um rigoroso sistema de governo são apenas algumas delas. A jornalista Sônia Bridi aventurou-se pela região por dois anos, como correspondente internacional da TV Globo. As experiências vividas por ela e sua família viraram livro. ‘Laowai’, que quer dizer estrangeiro, em chinês, conta os dois anos da repórter detrás das muralhas. As peculiaridades do povo e os inúmeros "causos" transformam a obra em referência para quem deseja um gostinho a mais desse fascinante país.
Sônia, que já havia trabalhado nos Estados Unidos e na Inglaterra pela emissora, recebeu a proposta de se mudar para a China logo após uma viagem por lá. "Fomos eu, meu marido, o cinegrafista Paulo Zero, e uma equipe para a cobertura de uma visita do presidente Lula ao país, em 2004. Passamos um mês fazendo reportagens para o Globo repórter e ficamos fascinados. Alguns meses depois, criaram o posto na China, a Globo Ásia, e eu e Paulo fomos convidados", conta. O fato de já conhecer o lugar deu tranqüilidade à jornalista, pioneira na cobertura latino-americana da China. "Vimos que não era um bicho de sete cabeças, mas sabíamos que haveria dificuldades. A pior perspectiva foi estar longe da minha filha, que ficou no Brasil fazendo faculdade", relembra.
Em 2005, Sônia Bridi rumou a Pequim com o marido e o filho Pedro, na época com 3 anos. Entre reportagens e coberturas especiais, percorreu o país, visitando também vizinhos como Japão, Tibete e Índia, onde entrevistou o Dalai Lama. A narrativa, pontuada pelo cotidiano da família, é leve e divertida. Os nomes complicados e a história que cerca os diversos aspectos da vida chinesa são explicados com minúcia. "Utilizei como referência vários livros, entre eles Em busca da China moderna, do Jonathan Spence, minha bíblia e guia das situações. Em resumo, desde 2004, tudo o que leio tem a ver com a China", observa.
A riqueza de detalhes da obra é fruto de outras pesquisas, já que, a princípio, Sônia Bridi não tinha intenção de transformar a história em livro. "As pessoas me cobravam esse relato, todos ficam curiosos com relação à China, talvez pela falta de informação. Laowai veio da necessidade que senti de contar as histórias. Como é viver, morar e fazer amigos num lugar que vive um momento único, intenso e transformador, que não vai se repetir na história da humanidade tão cedo", diz. A boa memória de Sônia foi de grande valia para a construção do livro. No material de pesquisa está um pequeno diário de viagem com curiosidades, e-mails enviados a amigos e parentes, cadernetas de reportagem e horas de fitas gravadas.
Figura respeitada num veículo que preza a imagem quase imaculada dos jornalistas, Sônia Bridi admite que sentiu receio de expor sua vida e a de sua família em Laowai. Muitas vezes, na narrativa, a repórter vive situações comuns, como ir ao supermercado e ao banco ou passando raiva com os inúmeros entraves – da língua ao governo. "Foi uma decisão difícil. Paulo e eu conversamos muito, consultamos amigos e percebemos que só era possível escrever o livro se liberássemos essas histórias pessoais. Expomos coisas privadas, mas não é como se uma revista de celebridades entrasse em nossa casa para mostrar nosso banheiro", compara.
Avanços e recuos made in China
Entre as curiosidades descritas por Sônia Bridi, chamam a atenção as dificuldades enfrentadas na execução das reportagens. Na China comunista, é preciso autorização para tudo. A censura aos meios de comunicação é rigorosa. Dos jornais impressos à internet, não dá para escapar: há delays nas transmissões ao vivo, lentidão nas conexões e, ao menor sinal de que algo que desagrade ao governo seja exibido, as comunicações são cortadas sem aviso prévio. Muitas pautas foram transformadas – em vez da reportagem propriamente dita, eram mostrados os entraves para a matéria.
Indagada se as dificuldades a tornaram mais tolerante, Sônia é enfática: "Era evidente que não era eu que ia mudar a China, as relações do poder com a imprensa. Mas as dificuldades não me tornaram nem um pouco tolerante, pelo contrário. Não acho que nenhum jornalista deva tolerar o controle de informação, a falta de liberdade de expressão, que nada mais são que direitos essenciais do ser humano. Aprendi a controlar minha raiva nas horas em que dava tudo errado e a transformar o pouco que a gente tinha em matéria", conta.
Se o jornalista já sofre na China com o controle da informação, imagine uma jornalista loura, alta, de olhos claros, totalmente fora dos padrões chineses. Ser "laowai" era só um agravante, bastava ser mulher. Durante a narrativa, enquanto explicava a situação das chinesas no país, um dito popular era repetido à exaustão: a falta de talento na mulher é uma virtude. A política do filho único (para controlar a superpopulação), aliada à falta de previdência pública no país, coloca as mulheres em desvantagem. Quando casam, elas viram parte da família do marido, ou seja, os sogros transformam-se em seus pais. Já os filhos homens têm a obrigação moral de cuidar dos pais, inclusive financeiramente, por toda a vida.
Sônia Bridi, no entanto, acredita que a situação tenha começado a mudar. "Na China, os mais velhos ainda têm certo machismo, mas o regime comunista fez uma coisa boa, que é a igualdade entre homens e mulheres, e lutam para pôr isso em prática. As mulheres têm acesso ao poder, ao mercado de trabalho. Para combater o infanticídio de meninas, o governo começou a ajudar as famílias. A previdência também dá seus primeiros passos no interior do país", relata.
Morando agora na França, a repórter sente falta do ineditismo chinês, da sensação de que tudo é novidade. "Para um jornalista, é onde você quer estar, tudo é novo, diferente. A China tem vários problemas em seu modelo de desenvolvimento, mas faz coisas sérias, principalmente na educação. As escolas são em período integral, e olha que o número de estudantes no ensino básico na China corresponde à população brasileira inteira. Fazemos muita piadinha com a pirataria chinesa, o made in China, mas daqui a pouco eles serão uma grande potência tecnológica. Chegou a hora de a gente copiar o que deu certo por lá."