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A Notícia - Anexo, 20/07/2008
Da equipe do Anexo
Repórter conheceu belas paisagens e imergiu no rígido regime política da China
Em meio à transformação por que passa a China, seu povo vive um dilema: melhor preservar costumes milenares e se agarrar às raízes ou já é chegada a hora de aceitar uma economia de mercado e embarcar no ritmo das mudanças? Esse momento de transição econômica e cultural foi acompanhado de perto pela jornalista catarinense Sônia Bridi, que viveu na China com o marido e repórter cinematográfico Paulo Zero entre 2005 e 2006, quando foi correspondente da TV Globo no Oriente. A experiência resultou na publicação do livro "Laowai - Histórias de uma Repórter Brasileira na China", lançado este mês no embalo da febre que atrai os olhares do mundo para a terra de Mao Tsé-Tung.
Mesmo produzido por dois jornalistas - Paulo Zero contribui com 48 páginas de fotos - o livro passa longe dos padrões tradicionais de reportagem. Em "Laowai" (estrangeiro), a correspondente apresenta uma China que se desenha por suas próprias percepções e pela experiência cotidiana de sua família. A cada página, enxergamos um país visto pelos olhos de quem deixou o Brasil carregando um filho de três anos no colo, sem a menor idéia do que poderia esperar.
Em uma narrativa que mistura jornalismo com pitadas de um diário de viagem bem-humorado, imprevistos com a bagagem, dificuldades no trânsito e outros incidentes que ficariam de fora numa reportagem comum aproximam o leitor dos chineses. De carona com a autora, mergulhamos numa cultura em que tudo é experimentado como se fosse a primeira vez: as palavras pronunciadas com dificuldade no dialeto local, a culinária desconhecida e o contato com pessoas estranhas reservam surpresas que exigem jogo de cintura e paciência.
Até nomes ganham nova roupagem. Durante dois anos, Sônia passou a ser chamada por Suo Ni Ya - segundo os chineses, uma representação de "delicadeza e feminilidade". Paulo virou Pau Luó, um nome "viril". "Tivemos de adotar nomes em chinês. Por causa dos erres, que os chineses são incapazes de pronunciar, Bridi e Zero são descartados", explica a repórter. O choque cultural enfrentado pelos brasileiros só não foi maior do que a curiosidade diante de uma realidade completamente diferente.
E não seria qualquer monumento budista que impressionaria a ambos. Se Sônia Bridi ficou conhecida pelo grande público ao aparecer em reportagens televisivas nos quatro cantos do planeta, foi através das imagens captadas por Paulo Zero que muitos brasileiros testemunharam episódios como a Guerra do Golfo e a queda das torres gêmeas do World Trade Center. Para estes dois cidadãos do mundo, viajantes de longa data, o exotismo do povo chinês fez brotar uma admiração compartilhada do começo ao fim com o leitor.
Ao chegar na China, Sônia topou com um povo cada vez mais carregado pelos traços do Ocidente. As diferenças milenares, aos poucos, vão se estreitando. Nos últimos anos, os chineses ganharam maior liberdade de locomoção e passaram a andar com dinheiro no bolso. Nada incomum para nós, mas um avanço significativo para eles, que agora se candidatam ao status de superpotência. Os primeiros sinais de uma sociedade mais aberta ao mundo são descritos com ar de consolo pela jornalista: "A vida de um repórter na China é infinitamente mais complicada que a do colega em Nova York, mas a sensação de que as coisas mudam, mesmo que lentamente, é confortante".