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Revista Cartaz, 25/04/2007
Emerson Gasperin
Nas três primeiras páginas, Beto acorda enjoado de ácido, nega o convite para participar de uma suruba, sai para fumar um baseado e decide morar sozinho. Não falta urgência em Tempos Heróicos (Letras Brasileiras), estréia do jornalista Jakzam Kaiser na "ficção". Explicam-se as aspas: ambientado na Porto Alegre das décadas de 1970 e 1980, é difícil separar o quanto o livro tem de autobiográfico de sua porção romanceada. A única certeza é de que a narrativa corre no mesmo ritmo vertiginoso que regia a juventude do autor, de seu alter ego e de toda uma geração que curtia cada momento como se fosse o último. Brotam passagens vividas com intensidade na época adequada - e escritas em época mais adequada ainda. Sem saudade, com carinho.
Tempos Heróicos leva uma tarde para ser lido, mas demorou dois anos para ganhar corpo e quase 20 para acontecer. Dividido em três partes não lineares, o livro começa com Beto querendo se transformar. A campanha pelas Diretas Já foi perdida. Depois de muita festa, percebe que a tríade sexo, drogas & rock'n'roll não o satisfaz como antes - o que não quer dizer que vá abdicar de qualquer um dos três. Dividido entre o emprego e a faculdade, ele constata que precisa buscar significado, conteúdo emocional, objetivos. "Preciso reagir, fazer alguma coisa importante, que me faça sentir melhor, mais forte, mais determinado", reflete, antes de resolver abandonar o cigarro.
A partir daí, a história volta à fase da adolescência do personagem, mostrando como seu temperamento e seu caráter foram forjados, com todas as contradições inerentes à idade. Surgem as transas, experiências com drogas, brigas e questionamentos. Deste período, emerge um Beto já formado, sem desculpas para não amadurecer, ansioso para progredir tanto em âmbito pessoal como profissional.
A militância política ficou para trás, trocada pela revolução individual. Em seu primeiro dia de trabalho como repórter, o jovem faz um balanço das experiências que o levaram (e ao leitor) até ali: a separação dos pais, as viagens, as encrencas, as descobertas. Acertadas as contas com o passado, é hora de pensar no futuro, não planejá-lo. Tal sensação é reforçada pelo jeito que a história é conduzida, com Beto vivendo um dia de cada vez, até se mudar para Florianópolis e encontrar sua alma gêmea.
De fato, o início e o fim de Tempos Heróicos se baseiam em um diário mantido pelo autor e em cartas. A reprodução de algumas delas serve para ligar um episódio ao outro (como as dos amigos e amigas), revelar aspectos da personalidade do remetente e do destinatário (as do pai) e dar um olhar feminino à obra, principalmente as trocadas com Úrsula, em uma relação que se arrasta por quase todo o livro. Depois de misturar as situações, colocando Beto em episódios ocorridos com outras pessoas (e vice-versa), Jakzam botou o ponto final. Agora é que viria o seu maior desafio.
Escrever aos 45 anos, casado, pai de família, como se tivesse 20 e fosse solteiro e inconseqüente, ele já havia conseguido. Restava tomar coragem para se expor às associações imediatas entre a sua trajetória e a do protagonista, impregnada de loucura, mulheres (são 35 ao longo do livro!) e presepadas. Jakzam reconhece que, se contasse tudo isso na época em que presenciou ou vivenciou, não teria maturidade para agüentar o tranco. "Tenho dois filhos, um de 12 e outro de 8 anos, que motivaram a supressão das passagens mais pesadas, foram meu freio", afirma, satisfeito com seus "censores". Diante do alto grau de combustão - alucinógena, sexual, política - presente nas 165 páginas, nem queira imaginar o que acabou sendo vetado.
* Emerson Gasperin é jornalista free-lancer, colaborador de publicações em São Paulo, entre as quais a Revista Bizz, da qual já foi editor. O artigo foi publicado originalmente na Revista Cartaz, publicação de Cultura e Artes produzida em Florianópolis (SC), com circulação nas principais capitais, na edição que chegou às bancas esta semana.