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Correio Braziliense, 17/02/2007
Gustavo Krieger
São o final dos anos 1970 e o início dos 1980. Uma época confusa, de transição. O Brasil vivia os últimos momentos do regime militar. Os partidos já se organizavam, protestos ganhavam as ruas, mas no poder ainda estava a figura carrancuda dogeneral João Batista Figueiredo. A Aids ainda não era um fantasma e um clima de revolução sexual incipiente acompanhava os primeiros sinais de liberdade política. Nesse cenário, um grupo de jovens de Porto Alegre começa a descobrir a vida. O livro relata, com sinceridade e sem nenhuma vergonha, esses tempos de sexo, drogas e trotskismo. É uma narrativa crua, que lembra Pedro Juan Gutierrez na os textos de Bukowski.
Beto, o protagonista, é um garoto que estuda jornalismo, veste camisetas com slogans contra a ditadura, enche a cara, faz passeatas e tenta levar tantas mulheres quanto possível para a cama, ao mesmo tempo em que vive as angústias e prazeres do primeiro amor. Tudo tão incoerente quanto verdadeiro. Mais que uma história sobre militância política, é o retrato de uma geração para quem os limites não faziam sentido. São os jovens que retomaram o movimento estudantil depois dos anos mais duros da repressão e refundaram a UNE. Que carregavam livros de Marx na mochila e um violão, enquanto pediam carona para viajar até a praia nos finais de semana. E que experimentavam a liberdade sexual, ao mesmo tempo em que se debatiam nos velhos dilemas sobre amor e compromisso. Não por acaso, ao falar do congresso de reconstrução da UNE, em 1979, em Salvador, as lembranças dos militantes desafiando a ditadura e cantando o Hino Nacional em tom de desafio se mesclam a uma cena de amor clandestino em barco ancorado na praia de Itapoã.
O livro é um daqueles romances que claramente encobrem uma autobiografia. Com os personagens protegidos por nomes trocados e quase 30 anos depois, o autor fala com despudor sobre amor, sexo, ciúmes, infidelidade e cafajestagem masculina. E faz isso com um grau de honestidade que os homens normalmente só conseguem quando estão numa mesa de bar com os amigos. Tempos heróicos retratados Trilogia suja de Havana ou Tempos heróicos rápida, nervosa, como as boas histórias de juventude. Mas não é boba. E nos ajuda a lembrar que existe um momento na vida em que tudo parece possível. Seja mudar o mundo, derrubar o general que está no poder ou fazer amor em um barco em Itapoã.