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A mais antiga das profissões revela romancista

O Estado de São Paulo, 02/12/2001
Deonísio da Silva

O gaúcho Goulart Rocha estréia com o surpreendente “Silêncio no Bordel de Tia Chininha”, forte candidato a um dos melhores romances deste alvorecer de século
 
De Jean-Paul Sartre, em A Prostituta Respeitosa, passando por Josué Guimarães em Dona Anja, o bordel está presente em numerosas obras literárias. Na maioria delas, como nas citadas, é um lugar de respeito. Ali, não são proferidos palavrões, o sexo é tratado com a liturgia própria ao mercado dos desejos, e os clientes e as profissionais do ramo, antigamente chamadas rameiras porque havia um ramo na porta das tabernas por elas freqüentadas, obedecem a rigorosas normas de comportamento.
 
O romance de Eliziário Goulart  Rocha, Silêncio no Bordel de Tia Chininha, filia-se a tal tradição literária. O nome da proprietária remete a conhecido sinônimo para mulher ilegítima, fosse ela concubina ou meretriz, com raízes no quíchua tchina, designando fêmea de animal. No português do Rio Grande do Sul, por influências dos vizinhos hispano-americanos, china, com inicial minúscula, deixou de indicar um país, para ser sinônimo de mulher de vida airada.
 
Em seu bordel, “as moças de vida fácil aprendem desde cedo a evitar emoções”. Claro, devem ser profissionais. Nem mesmo no fim do romance, quando a protagonista olha pela última vez para a casa onde viveu trocando favores sexuais a emoção pode aflorar. É preciso combater a plantinha do amor, por tênue que seja. Não que ali deva vingar a dó ódio, não. Apenas a da indiferença diante dos sentimentos.
 
Nas trilhas abertas por Jorge Amado, o redentor das prostitutas brasileiras, que as redime do inferno social conduzindo-as para o paraíso purificador da literatura, Goulart Rocha não demora a manifestar seu estro: ele escreve simples, o que deve ter demandado complexas reflexões e elaborações anteriores. A forma final é a de um regato literário. Sagaz, faz de seu ponto de vista um mirante privilegiado para desvendar as tramas do que Michel Foucault denominou “A microfísica do poder”, o funcionamento de pequenas engrenagens, que fazem girar no varejo o que é determinado em instâncias mais elevadas, vale dizer, no atacado. “Em lugares esquecidos por deus, o poder costumava se dividir entre os coronéis, o padre e a dona do bordel”. O autor credita ao “emissário divino” uma terrível semelhança com Chininha: a ambos são confiados segredos.
 
A iniciação sexual do brasileiro em épocas passadas já mereceu curiosos ensaios. No meio urbano, a tarefa cabia às empregadas domésticas, com quem os meninos da casa perdiam a virgindade. No meio rural, é folclórico o ritual do pai, conduzindo o filho pela primeira vez ao bordel, tomando duas precauções: o rebento não se tornaria homossexual – estigma a ser evitado de qualquer forma – e receberia a devida iniciação pelas mãos de uma profissional, já testada também pelo pai do garoto. “O apelido ela recebera havia anos demais para contar, quando ainda tinha físico e disposição para se responsabilizar pela iniciação sexual de nove entre dez sobrinhos das redondezas. Nenhum garoto virava homem sem receber as lições de Tia Chininha, e isso lhe garantira lugar de honra no imaginário local.”
 
Filme? – O romance, que dará um bom filme, tem cenas antológicas, como a da visita do médico, doutor Álvaro, descrito como senhor de uma pobreza que atestava longa vida de honestidade e cujos diagnósticos precários comprovavam que não merecia mais do que isso, quando vai atender uma crise de palpitações de Tia Chininha. Até as doenças, neste antigo Brasil, que ainda resiste nos sertões da pátria, tem nomes serôdios: palpitações. Feito o diagnóstico, há alívio geral no bordel: “Chininha ainda exploraria virgens muitas vezes.”
 
No bordel de Tia Chininha, feito o leilão de moça, quem a arremata pede licença para pegar nas mãos da suposta virgem, não a beija em público e a convida delicadamente para acompanhá-lo aos aposentos: “se não soubessem estar num bordel, muitos dos presentes seriam capazes de jurar que se tratava efetivamente de uma virgem e de um jovem apaixonado”. Não de um recém-casado que acabara de desposar mulher frígida.
 
Ganha destaque entre os personagens a figura de Jovita, que cria os filhos no bordel da sogra. Há um momento em que flagra a filha, Camila Luciane, se masturbando. A adolescente e a mãe trocam olhares, num diálogo sem palavras em que, entretanto, tudo é entendido sem que nada precise ser dito. “Apesar do silêncio elas chegaram a um acordo, a menina não seria repreendida”. E a mãe não teria o desprazer de suportar que a filha lhe atirasse a verdade nua e crua na cara.
 
Silêncio no Bordel de Tia Chininha é forte candidato a um dos melhores romances deste alvorecer de século, revelando um autor que sabe conciliar rigor técnico na arte de narrar e preocupação com o leitor, dois quesitos nem sempre presentes em nossas terras, como se para se aproximar mais dos leitores o autor devesse proceder a rebaixamentos de estilo. Não é o que acontece.
 
Mas não é apenas para com os leitores que o autor tem respeito. Ele respeita, principalmente, os dramas de seus personagens, o triste costuma de as mulheres sofrerem sozinhas em ambientes onde elas são quase sempre a maioria, como no caso da casa do título. É que ali também a engrenagem do poder põe umas contra as outras.
        
* Deonísio da Silva é escritor, doutor em letras pela Universidade de São Paulo (USP) e professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
** Resenha publicada originalmente no jornal O Estado de S. Paulo, em 2001.
 

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