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A Notícia - Caderno Anexo, 19/12/2006
Rubens Herbst
Quando "Tempos Heróicos" começa, o protagonista está deitado no chão, "fritando" por causa de um chá de cogumelos mal digerido. Pouco depois, está na cama com um casal de amigos, e, na seqüência, desce pelo elevador para cair na noite porto-alegrense. Na cena seguinte, há um armário atirado pela janela durante uma nova sessão de sexo e drogas. Tudo isso em apenas três páginas. Nas 160 que se seguem, o lema "viva rápido, morra jovem" continua sendo levado ao pé da letra por uma juventude que cresce e se descobre nos efervescentes e revolucionários anos 70.
Os elementos autobiográficos passeiam pelo livro, como a relação do protagonista com o pai, seu otimismo diante da vida e suas opiniões. Quanto aos personagens, lugares e situações, "Tempos Heróicos" é uma ficção baseada em fatos reais que foram triturados e mixados no liquidificador criativo do autor. "Há uma enorme dose de imaginação e fantasia entre a realidade e a ficção", garante.
O ritmo alucinante não cai quando Beto chega aos 18, ingressa na faculdade e o livro adquire um ar de diário sentimental. É quando o rapaz começa a ter outros interesses além de sexo e drogas – que continuam sendo consumidas à larga e sem restrições –, entre eles, o engajamento no movimento estudantil. Como membro da União Nacional dos Estudantes (UNE), Beto participa de encontros - como o lendário festival Cio da Terra, realizado em Caxias do Sul em 1982 –, reuniões secretas e até passeatas, tomando porrada da polícia. Essa consciência política resulta de um crescente amadurecimento, refletido também em preocupações com o futuro profissional, o modo de encarar o amor e conversas reveladoras com o pai. E o protagonista vai descobrindo onde se encaixa no mundo. Mas sem perder o gosto pela porra-louquice.
Descartando qualquer traço de nostalgia, Kaiser – antropólogo e jornalista, autor de dez livros, entre eles "Aventura no Caminho dos Tropeiros" (2006) – diz que a intenção foi registrar as realizações de sua geração. "O livro reflete opiniões minhas que foram construídas e consolidadas com o passar dos anos, mas que resultam de lições aprendidas naquela época", explica, relacionando a liberdade individual, a cautela diante de dogmas e a tolerância com o próximo como conseqüências desse aprendizado.
É de se especular se a atribulada situação política do País nos anos 70 – que, vale ressaltar, é apenas um coadjuvante no panorama do livro – empurrou a juventude da época de encontro a esses ideais. É algo que Jakzam não sabe dimensionar. Ele acredita, sim, que com ou sem ditadura, liberdade e experimentação são intrínsecas à juventude. Ou deveriam ser. A sua, pelo menos, corria riscos, não tinha a sombra maligna da aids sobre si nem um mundo virtual para explorar, apenas as ruas e o que elas tinham de fascinante e perigoso. "Uma geração precisa se rebelar contra a outra para se afirmar", constata.