home » Claudinha no ano da loucura » resenha » Lolita carioca
Anexo - A Notícia, 20/07/2007
Rodrigo Schwarz
Paulo Francis costumava dizer que ou a pessoa vive, ou escreve. A labuta literária exige uma dedicação tremenda, sem deixar muito tempo para curtir a vida. Nem todos concordam com Francis. O grego Alexandros Evremidis, há 30 anos radicado no Brasil, escreveu quase duas dezenas de livros que atestam o seu lema: “Não faço literatura, faço vida”. Uma dessas obras é o cultuado “Claudinha no Ano da Loucura”. Esgotado desde meados dos anos 80, o título é reeditado agora pela editora catarinense Letras Brasileiras.
“Claudinha no Ano da Loucura” narra o caso de amor entre um jornalista e uma pré-adolescente. Pelo tom visceral da narrativa, as páginas parecem saídas de um diário de Alexandros. O autor, que já trabalhou em revistas como “Veja” e “Manchete”, não revela se realmente teve um caso com uma adolescente, mas declara que a maior parte do livro é fruto direto de suas vivências. E no quesito vivência, Alexandros acumula milhagem: casou oito vezes (o primeiro enlace foi com Elke Maravilha), cursou 11 faculdades em cinco países, fala oito idiomas e já conheceu praticamente todo o globo.
“Meus livros não são historinhas. Cresci em um ambiente muito violento”, diz Alexandros. Ele nasceu nas austeras montanhas da Macedônia, em uma comunidade conservadora e avessa à cultura. A infância foi marcada por dois conflitos sangrentos: a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Civil Grega. “Levando em conta os horrores que presenciei, não dá para dizer que tive infância. E a escola era outro local de violência, só apanhávamos dos professores. Não foi lá que descobri o poder da palavra”, desabafa.
O poder das palavras, dos livros, foi descoberto em outro local: nos banheiros gregos. Na comunidade de Alexandros, era costume usar jornais picados como papel higiênico. As notícias, quase sempre pela metade, fascinavam o jovem Alexandros: “Foi ali que me tornei jornalista e escritor. Como eu não tinha o texto completo, precisava imaginar o resto da notícia. Eu saía pela rua devorando esses jornais velhos”, revela.
Com poucas perspectivas na Grécia, além de se tornar um pastor de ovelhas, Alexandros partiu para a Alemanha. Chegou sem saber falar uma única palavra no idioma de Goethe. Três meses depois, comunicava-se fluentemente em alemão. “É isso que nos torna humanos, a fala”, assinala. Continuou peregrinando pelo continente, até que, em uma viagem transatlântica, conheceu Elke Maravilha.
Os dois passaram um ano viajando de carro pela Europa, dormindo no próprio automóvel. Depois da empreitada, ela arrastou Alexandros para o Brasil, onde se casaram. Segundo o escritor, foi um matrimônio feliz, mas que sucumbiu ao que chama de “a coceira dos sete anos”. “A cada sete anos, o ser humano passa por profundas mudanças biológicas. Então, depois desse ciclo, meu casamento com a Elke precisou chegar ao fim.”
Sua relação com Elke inspirou seu segundo livro, “Melissa” (1974). O título, e a sua obra de estréia, “Adeus Grécia” (1974), estão fora de catálogo. Seu único título disponível nas livrarias é a nova edição de “Claudinha no Ano da Loucura”. “Tenho ainda inéditos sete livros de prosa e dez de poesia. Vou publicá-los aos poucos. O último, será lançado no dia do meu enterro”, brinca.
....................................................
"Livro perturbador no que releva sobre a alma"
Desde 1985 fora de catálogo, “Claudinha no Ano da Loucura” foi reeditado graças ao esforço de um grande fã do livro: Jakzam Kaiser, editor da Letras Brasileiras. Jakzam leu o livro no ano em que foi lançado. “Um livro perturbador no que revela sobre a alma humana, que provoca arrepios de tesão, mexe com o corpo todo. Inesquecível”, escreve Jakzam, na introdução da nova edição.
Como perdeu o seu antigo exemplar, durante mais de 20 anos Jakzam procurou por outra cópia de “Claudinha”, sem sucesso. Quando descobriu que Alexandros Evremidis mantinha o jornal eletrônico www.rioartecultura.com, entrou em contato com o escritor. “O Jakzam perguntou se eu tinha ainda comigo alguns exemplares de ‘Claudinha’ e de meu segundo romance, ‘Melissa’. Como eu não dispunha deles em estoque, ofereci enviar xerox autografados”, conta Alexandros.
Mais uma vez, Jakzam pode ler a história do amor entre um jornalista maduro e uma pré-adolescente carioca – e quem é seduzido é o homem. O impacto foi avassalador, e o editor resolveu devolver “Claudinha” às livrarias. “Senti a mesma empatia pelos personagens, a mesma força selvagem, um conhecido formigamento no ventre e na virilha – e me redescobri apaixonado por Clau”, conta Jakzam.