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Blog Amante Profissional, 24/07/2007
Paula Lee
Estou dividindo esse post em partes. Aqui na primeira parte a resenha do livro, na segunda as minhas opiniões pessoais, na terceira alguns trechos do livro e na quarta a lista de posts relacionados. Pensei em dividir o post em várias partes e publicar aos pedaços - algo, digamos assim, já habitual - mas como a minha escassez de tempo faz com que vários posts sejam adiados, resolvi publicar tudo de uma só vez.
- Resenha -
«Tempos Heróicos», do Jakzam Kaiser, é um romance que relata uma época fervorosa no Brasil. Uma época de ebulição política, uma época de movimentos estudantis e pensamentos revolucionários, uma época de “sexo, drogas e rock’ n’ roll” em que o agora acontece agora e o amanhã é apenas um tempo que demora muito a chegar, um tempo que não se conjuga no futuro mas no presente, quando for a hora.
«Tempos Heróicos» é sinónimo de liberdade, porque este é também um dos seus temas centrais: a liberdade além daquela de ir e vir, como também a liberdade de comportamento, a liberdade sexual, a liberdade ideológica, a liberdade de ser livre.
Beto, o protagonista do romance, fuma até se sentir fumado, bebe até se sentir bebido, goza até se sentir gozado. Não deixa um cigarro pelo meio, não deixa um copo molhado, não recusa uma noite de sexo enquanto o corpo não deixar de produzir a última gota de esperma. «Viver intensamente», eis uma definição em duas palavras, num tempo em que ninguém passava horas na frente do computador, em que as pessoas ainda escreviam cartas umas para as outras, em que não se preocupava tanto com a SIDA, em que se viajava à boléia, em que as músicas manifestavam uma mensagem revolucionária. Um tempo em que, inclusive, as redes sociais não eram as virtuais, estas onde adicionamos amigos que por vezes nem conhecemos de lado nenhum, não nos falamos ao telefone, não convivemos. As redes sociais do “Tempos Heróicos” eram de carne e osso, viviam a mesma coisa, bebiam do mesmo copo, ou por vezes dormiam na mesma cama.
Beto fala constantemente das legiões, aquelas que somos e aquelas que nos cercam. «Cada um de nós é muitos em um só, carrega uma legião de personagens dentro de si.», é o que diz fechando o segundo parágrafo da página 116. Sabe o valor da amizade, mas não se influencia pelas legiões alheias. Ao contrário do comportamento já tão habitual, em que muitas pessoas mostram apenas o que são (ou o que pensam que sâo, ou o melhor ângulo na fotografia) para que o outro veja, em que algumas têm comportamentos excêntricos apenas com o objectivo de impressionar, o comportamento do Beto e de todos os Betos que é num só sempre mostrou-se natural, parte dele, sem depender de influência, aprovação ou reprovação alheia.
O livro fala de amizade, dos laços construídos, das rupturas inevitáveis, seguir em frente sem olhar tanto para trás, e inclusive da quase angústia que todos nós temos, em função daquilo que pretendemos realizar. E enquanto observamos seu percurso entre as linhas do livro, ouvimos as músicas que ele ouvia, lemos os livros que ele lia, e vemos o quanto o passado é imortal, o quanto apenas as coisas mais importantes podem ser eternas, apenas a superficialidade pode ser esquecida.
Dois personagens carismáticos parecem centrais na vida do Beto, e são estes os que com certeza ficam marcados no livro pelo grau de importância que desempenham na sua vida: a Úrsula e seu pai. São das cartas escritas por ambos que saem reflexões que marcam toda uma época de vida.
O sexo não é programado, nem depende de laços, simplesmente acontece, e a honestidade da descrição é o ponto mais marcante. Além das sensações das boas gozadas, o Beto também não nega os momentos menos satisfatórios, o que torna o relato natural, espontâneo, vivo, real. “Punheta” ou “broxada” não são palavras abolidas, muito menos têm tom de censura ou escárnio, porque são tão naturais como o próprio sexo em si, como a própria satisfação. O sexo, afinal, independente da forma com que se pratica ou do seu fim, vale pelo que se sente.
- Opiniões Pessoais -
«Tempos Heróicos» não é um livro politicamente correcto (e não estou falando de política nem da luta estudantil). Ele não vai te ensinar a “ser uma pessoa melhor”, e a história do protagonista também não é propriamente um exemplo a seguir (no que diz respeito às regras de certo e errado que tentam colocar na nossa cabeça). E por que o livro “Tempos Heróicos” é bom? Justamente por causa disso. Justamente pelo seu lado cru, justamente pela sua frontalidade, sua honestidade, a sua falta de preocupação em criar influências. É uma história aberta, transparente, do tipo “pense o que quiser pensar”. Se o autor tivesse que se preocupar com o que o leitor pensaria, possivelmente não teria escrito esse livro. Possivelmente distorceria a realidade e diria apenas o que você quer ouvir, sem se preocupar no quanto o seu conteúdo serve como relato histórico de uma época.
Falando no que o leitor pode pensar, fiquei com medo de ler esse livro. Fiquei com medo de não gostar, fiquei com medo de achá-lo enjoativo. Levando para um lado pessoal, eu sou do tipo de pessoa careta, que não topa drogas, essas coisas. E como o protagonista do romance fala tão abertamente do uso de drogas, pensei que em algum momento iria sentir alguma espécie de cansaço. Mas tal não aconteceu, e se não aconteceu foi devido ao talento do autor em contar a história, conduzir o leitor, a forma com que conseguia me envolver de forma tão atenta que não sobrava espaço para ser interrompida por preconceitos.
Além das descrições das relações sexuais, também me senti próxima às cartas, (principalmente as do pai do Beto e as da Úrsula).
O livro conta a história de uma época “sexo, drogas e rock’ n’ roll”, e que não se baseia apenas nisso. Relata as mudanças de um tempo, um tempo em que as pessoas eram mais activas do que agora. Senti uma certa nostalgia ao ler esse livro, uma saudade inclusive daquilo que não vivi.
A forma com que o sexo acontece no livro me lembra um pouco o estilo do Henry Miller. Não estou fazendo comparações, detesto fazer comparações, porque estas, quando se tratam de autores e histórias diferentes, sempre se tornam injustas para ambos. Apenas me lembra. E nessa parte, tenho que dizer, o autor consegue fazer com que o leitor seja possuído por diversas emoções. Numa altura chegava a sentir raiva do Beto, uma raiva por vezes até injustificada, n’outras o pensamento que tinha em relação ao Beto transportava-o às libertinagens mais absurdas e promíscuas.
- Trechos do livro -
Página 108
«Entre um beque e outro, conheço Lili, uma sagitariana paulista com a minha idade e que faz aniversário no mesmo dia que eu. Somos parecidos, afinidade imediata, o mesmo humor, o mesmo olhar pras coisas, as mesmas certezas. E o mesmo gosto por sexo, sem frescura, sem vergonha, sem culpa. Ela está numa casa alugada com outras três paulistanas. Colocamos seu colchão no pátio e dormimos dois dias olhando a lua e o céu estrelado, transando sentindo a brisa do mar, cercados por um jardim de marias-sem-vergonha, hibiscos e alamandas.
(…) Estou um pouco preocupado com o nível de loucura. Entramos na BR-101 já é noite. Andrés se picou de coca antes de pegar a estrada, está doidão. Sua mina também. Más dá tudo certo, Deus protege os loucos e os bêbados. (…)»
Página 124:
«(…) Entro na sala, são várias mulheres, todas de avental, muito compenetradas. A mais velha - deve ser professora e suas alunas, estagiárias, residentes, sei lá - pergunta qual o problema, depois pede para eu mostrar o “cara”. Putamerda. Aquele mulherio e eu ali bichado, todas elas olhando as bolotinhas do meu pau, umas põem a mão, usam luvas cirúrgicas. Bem científico e despudorado. Dá pra notar um olho arregalado, uma respiração entrecortada, tem uma ou duas ali que não devem nunca ter visto um pau de carne e osso na vida. Sabe-se lá o que passa pela cabeça delas. Úrsula tinha razão, era cândida. Saio de lá candidamente.(…)
(…) Úrsula aparece em casa e começa de novo com o mesmo papo de como a gente é diferente. Estou cheio disso. Ela diz que me ama às vezes. Às vezes?! Dá vontade de enfiar o braço. Mas resolvo não discutir, ela vai ao banheiro, tiro a roupa e espero nu na cama, pau duro de pensar na professora. Trepada boa, mas não especial. Huummm… Será que enfim está passando a febre? Úrsula vai para sua casa, fumo mais um e entro a madrugada escrevendo um artigo sobre dialética e forças produtivas.»