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Sobre viver, crescer, sofrer e dar risadas

Folha de Londrina, 17/08/2007
Maria Celeste Corrêa

Tempos Heróicos, romance de estréia do jornalista gaúcho Jakzam Kaiser, é um livro instigante. A narrativa se desenrola a partir dos anos 1970, até o início dos anos 1980, tendo a cidade de Porto Alegre como pano de fundo. O livro, que tem traços nitidamente autobiográficos, conta a trajetória do jovem Beto a caminho da vida adulta, passando pela construção de sua identidade. Em meio à saga pessoal de Beto, surgem aspectos da reconstrução do movimento estudantil, das manifestações contra a ditadura militar e da intensa liberação sexual vivenciada por muitos daquela geração.

Quem foi adolescente durante a década de 1970, em um grande centro urbano brasileiro, se identificará com várias situações descritas em Tempos Heróicos. Porém, quem tinha aquela idade, naquele período, e vivia em Porto Alegre, vai se enxergar dentro do livro, mesmo sem ter compartilhado o estilo de vida libertino e libertário do personagem central. Foi isso que aconteceu comigo.

Assim como o Beto, frequentei as festas dos clubes União e Petrópolis, fiz faculdade de Jornalismo (eu na PUC e ele na UFRGS), fui aluna do extraordinário jornalista e escritor Sérgio Caparelli, assisti aos mesmos espetáculos, vi os mesmos filmes, li muitos dos mesmos livros. Exatamente como o Beto, perambulei pelos bares do Bonfim, o bairro mais alternativo de Porto Alegre. Alguns de meus amigos homens também entravam nas festas como ''furões'' - sem pagar o ingresso -, do mesmo jeito que o Beto. Como ele, caminhei pelas ruas da capital gaúcha durante a madrugada respirando um ar de liberdade que só a juventude conhece. Havia ainda o cheiro de romance e aquela sensação deliciosa de que o mundo todo era uma grande promessa e estava ali, diante de nós, para ser conquistado.

Por fim, do mesmo modo que o Beto, eu pertencia à classe média remediada e vivia contando os trocados. Mas as coincidências terminam por aí. Eu era o tipo de moça certinha, sonhadora, careta. A maior transgressão que me permitia era andar na carona de uma moto sem capacete. Já o Beto era furiosamente desvairado: consumia drogas de todo o tipo e em grande quantidade, praticava sexo sem proteção com um sem número de parceiras, comprava todas as brigas, topava qualquer parada.

No dia 15 de março de 1979, na mesma data em que o general João Baptista Figueiredo tomava posse como presidente da República, eu era eleita - pelo voto direto - presidente da minha turma na Famecos, a Faculdade dos Meios de Comunicação da PUC-RS. Todas as turmas fizeram isso. Foi a nossa forma pública de protestar contra a ditadura militar e as eleições indiretas para presidente. O Beto, porém, seguiu um caminho bem distinto, embrenhando-se pelas células secretas de partidos de extrema esquerda que militavam na clandestinidade.

A Praça da Matriz era - e ainda é - um lugar sagrado para mim. Além de muito bela, guarda ao seu redor a catedral, o teatro São Pedro e muitos outros prédios que testemunharam a história do Rio Grande do Sul. Também é ali que fica a Assembléia Legislativa, em cujo auditório adorava assistir às apresentações da OSPA, a orquestra sinfônica de Porto Alegre, junto com meus amigos. Já o Beto via a Matriz quase como o quintal da casa dele. Além de morar bem perto, usava a praça para jogar bola, conversar com os amigos e encenar algumas das passagens mais bárbaras de que eu tive notícia naquela época, pelos jornais: as sangrentas brigas lideradas pela gangue da Praça da Matriz, à qual o Beto pertencia.

Independente de ter sido adolescente quando Beto o foi, de ter nascido ou não no paralelo 30, o livro Tempos Heróicos atrai, prende e fascina por revelar - sem nenhum medo ou pudor - os caminhos e descaminhos de um jovem à procura de si mesmo, de sua verdade, de sua vida. E Jakzam Kaiser fez isso com rara coragem. Afinal, soltar uma metralhadora giratória numa linguagem rascante, explícita e seca - por vezes beirando o chulo -, sem se perder, sem escorregar, não é para qualquer um.

Outra personagem interessantíssima é a Úrsula, a namorada ''oficial'' do Beto, se é que se pode chamar de ''oficial'' um relacionamento que mantém as portas escancaradas para tudo e para todos - o tempo todo - de ambos os lados. Apesar de fincar pé em sua independência sexual, a moça também sofre com a constante infidelidade do namorado. Mais do que isso, nas cartas que escreve ao Beto, Úrsula revela lucidez impressionante para a sua pouca idade, sublinhando as contradições e o machismo renitente do namorado e de seus amigos mais chegados. Como o livro foi inspirado em sua própria história, Jakzam cometeu um ato de bravura ao se expor assim, desnudo, em público e com inscrição no ISBN.

Quem entrou na adolescência testemunhando o fim do casamento dos próprios pais - assim como eu e o Beto - também vai se identificar com essa história. A ruína da segurança representada pela família, as pessoas com os nervos em frangalhos, a base de toda uma vida se esfarelando e o chão escapando por debaixo dos pés.

No meio da ciranda enlouquecida, revela-se um ser humano em toda a sua complexidade, sem disfarces, com suas múltiplas facetas: o namorado apaixonado, o ''galinha'' inveterado, o filho devotado ao pai, o ''porra louca'', o profissional esmerado, o militante político, o aventureiro maluco, o cara que quer acertar. Está tudo ali. Todos são um só e é tudo verdade. O Beto surge com seu ar divertido, sedutor e irresponsável. Namora em tempo integral com o perigo e, vez por outra, flerta com a marginalidade, mas sem abrir mão de seus princípios e sem trair aquilo que ele entende ser um bem maior: a amizade. Foi este sentimento que uniu, lá adiante - no tempo e no espaço - a moça careta e o sujeito desvairado. A partir de 1986, já morando em Florianópolis e trabalhando no Diário Catarinense, conheci Jakzam Kaiser e me tornei sua grande amiga pela vida afora.

Já conhecia algumas das aventuras que estão no livro. Muitas delas, porém, foram surpreendentes para mim. Por isso mesmo, ler Tempos Heróicos foi um grande susto. Sofri, fiquei com raiva, chorei e dei graças a Deus por Beto/Jakzam ter sobrevivido para se transformar na grande figura humana que é, casar-se com a minha amiga Tetê e ser pai de dois guris maravilhosos, o Gabriel e o Felipe. A vida dá voltas, a Terra é redonda, cada um de nós não é bom nem mau. Apenas é. Assim como o Beto. Esse é o grande mérito de Jakzam Kaiser com Tempos Heróicos: mostrar de maneira nua e crua que, no fim das contas, quem tinha razão era o poeta português Fernando Pessoa. Sim, ''tudo vale a pena, quando a alma não é pequena''.

Maria Celeste Corrêa é jornalista e escritora, autora dos livros Araucária - A Floresta do Brasil Meridional e Retratos do Brasil - Curitiba

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