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Jornal do Brasil, 14/07/2007
Mariana Filgueiras e Vivian Rangel
As cenas de sexo vêm como sobressaltos. Encurtam a respiração, aceleram os batimentos, apressam a leitura. Quando se estendem, põem borboletas no estômago e escurecem o entorno. Se interrompidas, decantam as sensações para o que virá. Construir tais sentimentos, um a um, alternando-os ou sobrepondo-os, é segredo de quem escreve - ainda que apoiado em referências literárias ou em truques técnicos.
Ganhador de famoso concurso de contos eróticos da revista Status, nos anos 80, além de dois Jabutis, o escritor Domingos Pellegrini Jr. encara com naturalidade a composição das cenas íntimas. A única diferença - observa sorrateiramente - é que fica fisicamente excitado.
- Os requisitos são os mesmos para qualquer cena: contenção, graça, equilíbrio, penetração (psicológica), envolvimento para o gozo artístico, clareza para conscientização das idéias - lista, antes de comentar que são os personagens quem desenham as cenas de sexo, não ele. - Se é, por exemplo, o estupro de uma freira, prefiro apresentá-la rezando enquanto o estuprador resfolega e geme. Se é o estupro de uma mulher que provocou o estupro, é melhor deixar claro que ela está gostando, com detalhes sensoriais.
Outra dica de Pellegrini é evitar a descrição explícita:
- Por uma questão de graça (no sentido mais fino da palavra) não menciono órgãos genitais pelos nomes, preferindo dizer "embaixo", "meio das pernas"... O que é hipócrita, mas fica mais elegante e também mais excitante. É preciso contenção, implicitude, detalhes simbólicos, linguagem poética, ritmo acurado, linguagem figurada, e o velho talento, que não se aprende na escola.
A escritora Heloisa Seixas passou pelo teste logo no seu primeiro romance, A porta, que começa com uma cena de sexo grupal. Fluido e lírico, o texto recebeu elogios. "Alguém o descreveu como uma suruba barroca", lembra Heloísa.
- Desconheço fórmulas para escrever, quanto mais cenas eróticas. Os textos se escrevem, não há um controle racional a esse ponto. Para mim, a dificuldade é tentar não ser grosseira, nem repetitiva. Toda cena de sexo bem feita, explícita ou não, é excitante. Se isso não acontece, o escritor de alguma forma falhou.
Autor de A dança dos desejos e Convite ao desespero, Esdras Nascimento concorda com Heloísa sobre a naturalidade do desafio. As dificuldades na trama, explica, não se restringem às cenas de sexo, mas à busca do ritmo e da estrutura como um todo.
- Tudo o que faz parte da narrativa e lhe é essencial não pode ser evitado. Cenas de sexo, alguém almoçando num restaurante, um tenista na quadra. Sexo é atividade como outra qualquer, não tenho dificuldades em escrevê-las. No meu romance A dança dos olhares, há uma cena altamente erótica: uma dentista extraindo o nervo do dente de um cantor por quem ela é apaixonada. "Está doendo?" "Só um pouquinho mais". Os susurros, a ambiguidade das expressões, o clima instaurado. Creio que cheguei a um bom resultado.
Alexandros Evremidis, que acaba de relançar um cult erótico dos anos 70, Claudinha no ano da loucura, é mais enfático quanto à forma. Não admite as elipses, por exemplo. Evremidis acha que os recursos estilísticos - que deixam para a imaginação do leitor a resolução - não contribuem para a elegância do texto, mas antes revelam o pudor do escritor.
- Não concordo com as elipses. Na hora do bem-bom, a câmera vira? O escritor pula? Não aceito isso de jeito nenhum. A nossa cultura é hipócrita, ainda considera o sexo pecado. A única coisa que deve nortear o escritor é a sinceridade - diz Evremidis, que tem entre seus projetos uma versão mais picante da Bíblia.
Reinaldo Moraes faz coro. Para ele, o bom gosto oficioso das cenas em que leitores e críticos consideram "eróticas" usa o aparato retórico da literatura como véu estético para a "velha e boa sacanagem".
- Um certo descalabro verbal e uma certa atitude antiestetizante combinam com o narrador gaiato que costuma me baixar na hora de escrever, seja em primeira, terceira ou vigésima pessoa. Faço, portanto, um uso quase técnico da obscenidade - explica Reinaldo, admitindo a falta de pudor ao descambar por descrições objetivas. - Se isso me parece apropriado lá dentro da narrativa, posso dar sinal verde para o meu narrador liberar descrições duras e óbvias, caindo de boca no mais sulfuroso calão. Lembro de uma cena de sexo entre os personagens Oliveira e a Maga, no Jogo da amarelinha, de Cortázar, em que lemos que o cara "dobrou" a mulher e "a usou como a um adolescente". Uma forma mais delicada do que uma rima grosseira com Pacaembu. Mas, e quando você não está interessado em nada muito delicado? Aí, dá-lhe Pacaembu.
As rimas fazem parte das "sutis complexidades" da linguagem, adverte o escritor Deonísio da Silva.
- Eu prefiro os eufemismos, as metáforas, evito os palavrões. Mas Rubem Fonseca, que é mestre de todos nós, prefere palavrões e escreve muito bem com eles. Cada qual com seu estilo.
Silviano Santiago, ao contrário, prefere o refinamento da metáfora, que pode render cenas belíssimas. Ele lembra, por exemplo da imposição do Código Hayes no cinema, nos anos 40, quando as cenas de sexo foram proibidas nas telas e os diretores tiveram que se virar para criar metáforas visuais.
- Em Com o diabo no corpo, um rapazinho é seduzido e se envolve com uma senhora mais velha. Pouco antes da cena em que eles se tocam, ele coloca uma panela com leite para ferver. Então, quando se aproximam, o leite transborda - lembra Silviano. - Nos livros, a cena se torna imperiosa não porque você a escreveu, mas porque ela se impôs em determinado momento, e sua linguagem deve estar de acordo com o contexto do resto da obra.
O escritor Nelson de Oliveira arremata o raciocínio:
- Uma cena de sexo é fundamental numa obra literária sempre que o sexo da vida real estiver em perigo. As convenções banalizam e infantilizam o sexo, transformando-o numa experiência pobre. Cabe à literatura e a todas as artes salvar e enriquecer essa experiência.