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Blog Amante Profissional, 12/09/2007
Paula Lee
Então, Ataliba tirou o maço de cigarros do bolso traseiro das calças que guardara do serviço militar, hoje fechada com sacrifício, e tentou acender um, que de tão amassado custou a pegar fogo. Olhou de soslaio para Jovita e os cinco filhos, insistiu mais um pouco com o palito de fósforo e anunciou, estou indo para o Rio.(…)»
É verdade que só o facto de ser um homem a escrever sobre um bordel faria ecoar a minha implicância. O que faz um homem a descrever um bordel, ou mais importante ainda, como o fará? Antes de abrir o livro, minha implicância já ditava a história: apelação erótica, uma realidade do glamour dessas damas do sexo, descrições físicas exageradas, concentradas no libido masculino.
Antes de abrir o livro, ainda tentei analisar o que vinha por fora. Na capa uma fotografia em preto e branco, onde as sombras e as luzes insinuam uma mulher nua, cheia de sardas, deitada com a mão no pescoço. Na contracapa sou despertada pelo que diz ninguém mais ninguém menos que Deonísio da Silva: «(…)Silêncio no Bordel da Tia Chininha é forte candidato a um dos melhores romances deste alvorecer do século.(…)»
Abro o livro de forma inocente, sem saber que a partir desse momento estou presa nele. Deonísio da Silva não estava exagerando em uma única palavra. Verifiquei que não era um homem a descrever o bordel, mas um ESCRITOR, assim com letras grandes.
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RESENHA
«Silêncio no Bordel da Tia Chininha», do Eliziário Goulart Rocha, nos põe dentro de um dos bordéis mais famosos da região, junto com Jovita e seus cinco filhos.
Mesmo ao fazer de um puteiro a casa da sogra, o livro não me traz conflitos que talvez pudesse esperar entre Jovita e Chininha, a dona do bordel e também sua sogra. Muito pelo contrário, o foco está em outra direcção: a saudade, a solidão, o desejo, e, sobretudo, a expectativa. Porque viver dentro de um bordel equivale a isso, sempre estar esperando por alguma coisa. Quando as portas do bordel se abrem, a cortesã já penteou o cabelo, já perfumou o corpo e coloriu os lábios, tudo para esperar pela chegada dos clientes, os homens com os quais se deitará, às vezes conhecidos, outros sem rosto. Por vezes nada sabe dele, de cada um que vai entrar por aquela porta, do que vai acontecer nos próximos segundos, e nem mesmo se ele vai chegar. A descrição feita no «Silêncio no Bordel da Tia Chininha» nos deixa próximos dessa realidade, a vida como uma enorme e angustiante sala de espera. Nem sempre essa sala de espera tem as paredes brancas e as revistas numa mesa. Na maior parte das vezes, na nossa vida, enquanto esperamos também seguimos em frente, sem contar com aquilo que aguardamos que aconteça, mas a esperança continua ali, quase como uma condição para a felicidade. Algumas vezes estamos sentados na sala de espera, olhamos para a porta da rua, e só nos apetece fugir. Mas muitas vezes continuamos ali, esperando, mesmo que a espera seja cansativa, porque dentro de nós há uma força que dita que devemos esperar, e é o que fazemos, ou por instinto ou por não conseguir uma solução mais lógica. Nem sempre estamos trancados na nossa vida ou nas opções que tomamos ou tivemos, mas em muitos casos a expectativa é o que temos de mais concreto. Por vezes sabemos o que esperamos ou quem esperamos, mas muitas vezes essa espera nem mesmo tem um rosto. Porque a sequência dos dias e as suas surpresas vão redefinindo as nossas expectativas, ou deixando apenas as pegadas das suas sombras.
«Silêncio no Bordel da Tia Chininha» ganha pela riqueza que arranca da simplicidade. Ganha pelo estilo, algo que definiria como “um conto-de-fadas adulto”, não pela ficção, mas pela forma com que a história pode ficar impregnada na nossa mente, nos acompanhando pelo resto da vida. Ganha porque, apesar da opção de poder explorar o bordel de forma vulgar ou apenas erótica, o autor optou pela beleza como forma de narrativa. Serei capaz de odiar o autor se um dia ele me contar que o «Silêncio no Bordel da Tia Chininha» foi escrito de uma só sentada, porque, segundo me parece, foi um livro muito bem estudado, muito bem estruturado, e com as situações muito bem misturadas com o propósito claro de nos trazer um mundo complexo sem que sentíssemos um grande peso nas costas. O erotismo acontece no livro, mas sempre se insinuando, sem ser explícito, como uma boa - e certamente maliciosa - provocação. Como conhecedora do meio, pelo facto de já ter vivido dentro de muitos bordéis, posso dizer que sim, consegui me sentir dentro do bordel da Tia Chininha, um bordel com os seus fantasmas, o seu calor, as suas artimanhas, e novamente refiro, as suas expectativas. Porque num bordel o que reina é a expectativa, apesar de, muitas vezes, a sala de espera possuir camas ao invés de cadeiras e sofás. «Silêncio no Bordel da Tia Chininha» chega como uma obra de arte, respeitando uma cultura, explorando um ambiente de prazeres e desejos expostos e outros ocultos.