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O Estado de Minas, 15/09/2007
André Di Bernardi Batista Mendes
Claudinha - no ano da loucura mostra de forma explícita as aventuras sexuais, os desbundes e os encontros existenciais de Alexandros Evremidis
A Editora Letras Brasileiras acaba de relançar Claudinha no ano da loucura, o terceiro livro de Alexandros Evremidis. Cult dos anos 80 - a obra está esgotada desde sua primeira edição, que é de 1985 -, o livro ganha
merecidamente um tratamento especial em termos de acabamento gráfico. Escrito na primeira pessoa, o autor pinta um interessante e contundente painel autobiográfico, como fez anteriormente com Melissa, onde fala sobre seu romance com a espevitada Elke Maravilha (Alexandros foi seu primeiro marido), e Adeus Grécia, onde conta as inúmeras agruras de sua infância conturbada. Ambos os livros são de 1974.
Em Claudinha, Alexandros escreve no limite da transgressão e do desbunde total ao contar as peripécias amorosas de um homem - Mavrô, jornalista de uma revista, alter-ego do autor - de 30 e poucos anos, que se deixa seduzir por uma garota, filha de uma colunista social, de - pasmem - 11anos. A princípio o estranho desponta, surgem os questionamentos inevitáveis sobre a veracidade ou a autenticidade de todo o processo. Mas no desenrolar dos fatos acabamos perdoando o personagem, que, pobre coitado, pobre mortal, não resiste.
Mas como não se apaixonar por essa beldade, por essa mulher que vive num corpo de ninfeta? Trata-se de amor à primeira vista. Alexandros detalha a cena, para ser imaginada em câmera lenta: "Bonita é ela. Cara larga e bochechuda, sobrancelhas espessas e escuras e olhos grandes, úmidos e azuis - dois oceanos profundos e misteriosos. A boca, algo não sei o quê, lábios grossos e carnudos, indecentes, desses que a gente tem vontade de morder e chupar o sangue. Cabelos pretos e compridos e peitos redondos - devem estar inchados, penso, por causa da adolescência". Inocência versus astúcia. Não se iludam, pois a doce Claudinha, dona de um magnetismo ímpar, passa de vítima a algoz com a serenidade e o furor uterino que só uma linda, e louca, pré-adolescente pode e sabe ter.
O personagem de Alexandros, coitado, embarcou bonito. Corajoso, o escritor botou pra fora, colocou no papel suas transgressões apimentadas. Nada de suquinho diet. Esqueça a palavra meio-termo. Depravação total. As maravilhas e horrores de uma alma exposta. Altas doses de libido. A alma crua.
ANOS 70
Baila comigo, entre nessa, afrouxe o cinto e aguarde. Conto-lhe esta pequena história
Ao pé de seu ouvido. Como um segredo. Parece que ouço Alexandros dizer. O livro, ambientado no perigoso Rio de Janeiro dos anos 70, mostra as desventuras destes personagem, deste belo casal de pombinhos apaixonados que vivem um amor desesperado confinados dentro de um pequeno apartamento.
Aos poucos, a situação esquenta e entram em cena outros malucos desavisados que pegam o bonde andando e não desapontam. Para a turma vale a máxima do um é pouco, dois é bom é três - ou quatro - é bom demais. Sexo grupal, acrescido de drogas e rock-and-roll. Mas adianto: o trem sai dos trihos e o final é trágico.
O livro tem o tamanho de uma afronta, mas este ultraje aos bons costumes é bem redigido. A história convence. Se Nabokov não aprovaria a obra, que não tem o alcance literário e a profundidade de um clássico como Lolita, Bukowsky e Henry Miller, ou até um Pedro Juan Gutiérrez, certamente bateriam palmas, excitadíssimos.
O seu texto pode não ter o primor de, digamos, uma estrutura literária
perfeita, mas ali pulsa incontestavelmente o sangue vulcânico de um grego maluco e dali brota uma torrente de vida e desejo incontestáveis. De seu nome embaralhado - Evremidis - surge um típico cidadão do mundo que se embrenhou e se perdeu pelos caminhos tortuosos e ardentes que não poucas vezes a vida oferece. Alexandros, um feliz desterrado, é um grego louco que "se perdeu pelo mundo mas se encontrou no Brasil", como anotou Carlos Heitor Cony, ao comentar o livro.
Evremidis nasceu na Macedônia, mas vive no Rio de Janeiro, onde mantém sua "bússola apontada para o Mundo dos Livros e para a causa do Amor e da Liberdade".