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29 de Agosto de 2008, 12h11
Fonte:Revista da Cultura
Olimpíada rumo à democracia
Artigo exclusivo de Sônia Bridi, jornalista e autora de Laowai – histórias de uma repórter brasileira na China
Os Jogos Olímpicos são para a China mais que um evento. São seu “baile de debutantes”. A China hoje é como uma grande família tradicional, que caiu em desgraça, teve sua casa tomada (pelas potências européias no século 19, pelos japoneses no século 20), perdeu os bens mais preciosos e cometeu erros terríveis, como arruinar suas memórias (a destruição de bens culturais, obras de arte e monumentos, durante a Revolução Cultural, de 1966 a 1976). Agora essa família encontrou o rumo. Descobriu uma linha de negócios, aproveitando o que estava em falta no mercado – mão-de-obra barata e com pouca proteção social. Ganhou dinheiro rápido, está reinvestindo bem, matriculou os filhos na faculdade e já se vê de novo como parte da high society.
Diante dos Jogos, os chineses se vêem mostrando para o mundo como nova potência econômica, um país de megatransformações. Tiraram 800 milhões de pessoas da miséria, elevaram 400 milhões à classe média em apenas 25 anos. Promoveram o maior e mais rápido caso de ascensão social da história. E querem que o mundo veja essas conquistas. Não é a primeira vez que um país usa a Olimpíada para sedimentar sua boa imagem. Em 1964, o Japão fez dos Jogos a pedra fundamental sobre a qual reconstruiu a nação, arrasada na Segunda Guerra. Da mesma forma, a Coréia do Sul, em 1988, solidificou sua posição de país na porta do primeiro mundo. Mesmo a Espanha se beneficiou dos Jogos de Barcelona, em 1992. Mas, para a China, em vez de admiração ou aprovação, o olhar é de crítica. Há duas razões para isso.
A primeira é que a China não foi capaz de avançar nas reformas políticas e sociais com a mesma velocidade com quem cresceu economicamente. O mundo rico estabelecido respeita valores como democracia, direitos humanos, liberdade de expressão – ainda que muitas vezes esse respeito não passe de retórica. A China não está nem aí. O velho argumento comunista de que o bem do coletivo se sobrepõe ao do indivíduo prevalece, mas agora para justificar o autoritarismo e a repressão. Mas há um fator externo também. Ao criticar a China pela poluição, a exploração da mão-de-obra, a repressão, tentamos negar que somos parte desse ciclo. Ora, de quem é a poluição emitida para a fabricação dos televisores LCD vendidos no Brasil? Quem mais se beneficia da exploração dos trabalhadores das fábricas de calçados que inundam os mercados europeu e americano? De quem é a poluição emitida pelas fábricas de brinquedos baratos que damos para nossos filhos? Ao fazer esse outsourcing da produção industrial, tentamos fazer de conta que não temos responsabilidade no processo. Sim, a elite chinesa está enriquecendo. Mas as grandes corporações transnacionais, que cortam seus custos com os produtos made in china, se beneficiam muito mais.
No mundo globalizado, a China é o quintal sujo que abastece nosso consumo. A partir destes Jogos Olímpicos, a imagem pode ser transformada. O dever de casa os chineses estão fazendo – a educação recebe investimentos massivos. Mas o essencial será as lideranças chinesas saírem do evento com “face” suficiente para começar a abertura política. Hoje há uma disputa interna no poder chinês. Se a China passar vergonha nos jogos, a linha dura, isolacionista, pode ganhar força. Se fizer bonito, os liberais podem começar o processo de abertura – lento, no ritmo chinês, mas com destino certo: a democracia.