Eram sete horas da manhã. Dezenas de pessoas, já enfadadas, enfileiravam-se na gigantesca área de imigração do aeroporto de Lisboa. Apesar de nosso vôo ter chegado no horário, prevíamos perder a conexão, pois a fila não andava. Algumas garotas esperavam sentadas ao lado de uma coluna. Um jovem, vestido com largas roupas de grife, caminhava com passos de ema em volta dos pais, altos e atléticos como ele. Meia hora depois – tempo o bastante para a leitura de vinte páginas do livro que eu carregava e uma parada no box da imigração –, estávamos prontos para remarcar o vôo perdido.
As férias começaram com três longas filas e duas horas de preparação para o embarque, no Brasil. Check in e despacho de malas, revista das bagagens de mão, apresentação de passaportes e espera para embarque consumiram uma hora e quarenta e sete minutos. Já na Europa, pegamos mais quatro horas na espera de nova conexão, duas horas e meia de vôo e outra conexão de uma hora em Frankfurt. A previsão é que cheguemos ao aeroporto de Berlim às 18h30min. Depois, haverá o recebimento de malas (esperamos que todas as malas!) e uma corrida de táxi. Com sorte, chegaremos ao hotel por volta das 20h. Quase vinte horas após sair de Fortaleza!
Viagem de turismo é prazer. É a procura de emoções variadas, mas agradáveis. Arriscadas, mas seguras. A cabeça a mil, na expectativa de paisagens estonteantes, museus de tirar o fôlego, restaurantes nababescos e muitas fotos para mostrar à família e aos amigos. Férias, lua-de-mel, presente de bodas de casamento, o sonho de infância de conhecer o cenário dos filmes, o Mickey ou dourar o corpo em Canoa Quebrada (CE), tomar um drink e comer um bom peixe à beira-mar. Ao turista não interessa se o aeroporto está cheio, se há greve ou mala perdida. O turista quer ser feliz.
Como o turismo é um produto consumido fora de casa, é natural que haja um deslocamento. Em vôo direto, Berlim fica a dez horas de Fortaleza. Paris, a nove. Lisboa, a seis horas e meia. Essa distância fica ainda maior com os incríveis gargalos do turismo, os pequenos entraves, as necessidades de segurança, as limitações econômicas e de pessoal. Tudo isso modifica o tempo de viagem, suga energia de governos e pessoas, limitando e reduzindo nossas horas de lazer.
Há várias formas de se perceber a distância. No sentido físico, ela é calculada em função do tempo ou da medida física, como o caminho mais longo ou mais curto. Na geometria, ela é definida como o menor espaço entre dois pontos. Na geometria algébrica, é definida por fórmulas precisas, às vezes complicadas. Há outras interpretações, como a distância que separa gerações, pessoas que se amam...
A distância turística é o conjunto de fatores que facilitam ou dificultam a realização de uma viagem. Quanto maior a distância turística, mais vagarosamente o destino vai se desenvolver. A medição dessa distância específica envolve tudo o que separa a vontade de visitar o destino do ato físico de chegar nele. Diz respeito à burocracia estatal, à economia e à percepção pessoal. Ela pode ser analisada em função do tempo de acesso aos serviços desejados, do custo, do conforto da viagem, dos meios de transporte e da infra-estrutura existente na origem e no destino. É possível constatá-la em função de dificuldades administrativas, lingüísticas, emotivas e culturais.
As variáveis da distância turística
O tempo de acesso ao destino em geral é contado pelas horas de vôo ou de deslocamento terrestre. No primeiro caso, é preciso incluir o acesso ao aeroporto, os trâmites de embarque e desembarque e a partida do aeroporto ao destino final. Em viagens terrestres, deve-se levar em conta o trânsito local, as condições da rodovia, o fluxo de veículos, engarrafamentos de feriados, segurança, além dos serviços disponíveis de alimentação, postos de serviço, banheiros e outros que existem na estrada.
O trade turístico europeu, por exemplo, costuma dividir viagens pelo tempo de vôo das aeronaves. Vôos diretos de até oito horas de duração têm boa aceitação no mercado de lá, assim como vôos de até seis horas com uma conexão. Nas viagens curtas, de fim de semana, preferem-se destinos distantes uma hora e meia de carro. A qualidade das estradas e a velocidade média dos veículos têm grande influência nessa pré-disposição do mercado. Uma cidade gaúcha pode aumentar a demanda turística com uma simples mudança na velocidade máxima de uma rodovia, a construção de uma estrada mais curta e com menos tráfego...
O custo deste acesso também é crucial. Os vôos charters e os pacotes turísticos facilitados inserem no mercado destinos turísticos antes inatingíveis. Um programa de uma semana em Paris, a US$ 999, com hotel incluso e a possibilidade de pagamento em até sete vezes sem juros, repercute imediatamente na ampliação do mercado. Fortaleza, a partir de Berlim, por 679 euros também cria condições imediatas de geração de fluxo.
Os meios de transporte disponíveis e a infra-estrutura de viagem são de grande influência. Vôos em aviões pequenos e apertados não são problemas para viagens curtas, mas são desesperadores para viagens de nove horas. Chegar ao aeroporto três horas antes do vôo ou ficar na fila da alfândega por uma hora dificultam a viagem e criam insatisfação, gerando péssimo boca-a-boca.
Dificuldades administrativas podem ser definitivas. A exigência de visto pelos americanos e a reciprocidade brasileira nesse quesito causam uma grande dificuldade no fluxo de turismo entre os dois países. A demora na fila de imigração de Lisboa causa atrasos aos passageiros e prejuízos financeiros à TAP, que precisa recolocar os viajantes sem conexões em outros vôos.
Dificuldades culturais, línguas estranhas e costumes diferentes aumentam a distância turística. Além disso, os processos de segurança nos vôos internacionais e os processos migratórios criam dificuldades extras aos turistas, o que leva muitas pessoas a optarem pelos destinos domésticos.
A distância turística é sem dúvida um fator determinante para o sucesso do destino turístico. A compreensão e o uso deste conceito auxiliam a otimizar o retorno destes investimentos em forma de fluxo de turismo e venda dos produtos associados.
A aplicação do conceito pelo mercado
A fixação e a medida da distância turística ainda aguardam um trabalho acadêmico. O Beach Park, complexo turístico localizado em Fortaleza, utilizava um sistema com algumas das variáveis citadas acima para determinar a distância turística. O sistema gerava um número obtido a partir da análise de indicadores públicos para orientar as ações de promoção do empreendimento. Entravam na conta a distância física em quilômetros da origem até o Beach Park, a renda média familiar (indicativo da capacidade de compra), a geração de ICMS per capita (indicativo da capacidade de investimento em infra-estrutura do Estado) e os resultados de pesquisa de fluxo realizada no parque.
Entre as conclusões deste trabalho, descobriu-se que Maceió, por exemplo, ficava muito mais distante de Fortaleza que São Paulo, apesar de fisicamente estar muito próxima. O morador da capital alagoana levava sete horas para chegar a Fortaleza e pagava duas vezes mais que os paulistas para passar uma semana no mesmo destino. Embora muitos fatores ficassem de fora na análise, ao aplicar a fórmula às capitais e principais cidades brasileiras, o sistema de marketing da empresa tinha um panorama interessante sobre o potencial de cada mercado.
A análise das dificuldades que cada mercado emissor tem para consumir o destino/produto turístico revela aspectos importantes do que pode ser melhorado para aumentar sua competitividade. Governos, conventions bureaus e associações de classe do trade melhorariam seus planejamentos se realizassem uma análise detalhada de cada mercado com foco nas dificuldades encontradas para o consumo de seu produto.
Se a cidade de Berlim fizesse um estudo desses para atrair turistas de Fortaleza encontraria um mercado difícil de desenvolver: falta de vôos diretos; dificuldades encontradas no serviço de imigração português, principal portão de entrada para cearenses; desconforto físico nas viagens em função da distância entre as cadeiras na aviação moderna; carências econômicas inerentes a uma população de poucos recursos; sem falar nos problemas lingüísticos e culturais que tornam a distância turística muito maior que a física. O reverso é verdadeiro. Para dar condições à abertura desses mercados, seria necessário o estabelecimento de rotas diretas, talvez com vôos charters.
Já a distância turística da Alemanha a Pernambuco é bem menor. Recife tem uma experiência de vinte anos de trabalho com o mercado alemão. Existem vôos charters diretos, operadores de receptivo especializados e pessoal preparado para receber este fluxo em hotéis e restaurantes. O amadurecimento desta relação reduziu a ansiedade dos visitantes, que contam com um complexo sistema de suporte já comprovado, experimentado e aprovado por milhares de alemães que visitaram a cidade nos dois últimos decênios.
A conclusão é que, ao montar a estratégia de manutenção e de crescimento de mercado, faz-se necessário observar os mais variados aspectos que afetam a realização das viagens turísticas. Entender tais dificuldades e trabalhar para eliminá-las, ou reduzi-las, é papel essencial de todo planejador de políticas de turismo. &