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Turismo & Cia.

Briga de Gente Grande

A experiência pela qual a Embratur (Instituto Brasileiro de Turismo) vem passando, desde 2003, traz embutido um conceito diferente, senão novo, dos modelos de gestão do turismo público experimentados pelo Brasil ao longo de sua história.

Eduardo Sanovicz - CEO da Reed Exhibitions Brasil e ex-presidente da Embratur (2003-2006)¹

As transformações ocorridas nos últimos três anos e meio começam na campanha presidencial de 2002, quando o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva firmou dois compromissos com o setor e, portanto, com os profissionais que trabalham pela promoção comercial do turismo no país.
 
Primeiro, comprometeu-se a criar um ministério exclusivo para o turismo, que até então era sempre um apêndice ou parte menor em outros ministérios. Depois, profissionalizar a Embratur, o órgão que nos últimos 36 anos vinha sendo a única tradução de qualquer ação federal de incremento e regulamentação do setor. Profissionalizar significava dar ao mercado uma representatividade maior e mais focada naquilo que o setor do turismo pedia e necessitava.
 
Essas duas atitudes, materializadas a partir de 2003, sinalizaram para a sociedade que o turismo, a partir daquele momento, passara a ganhar outra musculatura e, portanto, uma dimensão maior dentro das ações de governo.
 
Um dado que ilustra bem essa mudança é o orçamento de que o turismo dispunha até então e adquiriu a partir daquele momento. O orçamento global do Ministério do Turismo (MTur) para este ano é de R$ 1,7 bilhão, incluindo os R$ 425 milhões aportados como crédito suplementar. Do total, R$ 1,04 bilhão representa o limite para empenho, ato contábil que antecede a liberação do recurso. É o melhor desempenho desde a criação do MTur, em 2003, quando foram investidos R$ 127 milhões de um orçamento de R$ 134,9 milhões. Nos anos seguintes, a trajetória foi de crescimento: R$ 357,9 milhões em recursos liberados em 2004 e R$ 716,3 milhões em 2005. À frente da pasta, o ministro Walfrido dos Mares Guia desempenhou papel decisivo para definir esse novo peso que o turismo tem hoje.
 
A nova Embratur 
Criado o MTur, as ações e atribuições de cada um foram redesenhadas. Naquele momento, todos os programas que diziam respeito à regulamentação e políticas públicas ficaram sob responsabilidade do novo ministério, que passou a desenvolver programas de infra-estrutura, regionalização e promoção do turismo interno com maior autonomia e solidez orçamentária.
 
À Embratur, coube a promoção do Destino Brasil no exterior.
 
Voltemos a 2003. Em abril, é lançado pelo presidente da República o Plano Nacional de Turismo. A nova estrutura do Instituto fica encarregada de alcançar três metas até 2007: garantir a vinda de 9 milhões de turistas estrangeiros, gerar o ingresso de 8 bilhões de dólares em receita e ajudar o MTur a criar 1,2 milhão de novos empregos.
 
Tais tarefas exigiram, a partir daquele momento, repensar a forma como o Brasil sempre se promoveu lá fora². Para isso, foi preciso rememorar como o país se apresentou além de suas fronteiras ao longo de sua história.
 
Modelo anos 60: café, caipirinha, samba e futebol 
Um símbolo dos primórdios de nossa promoção é Carmem Miranda, atriz que mostrou, a partir de Hollywood, que o Brasil tinha um povo alegre, hospitaleiro e musical. Esta imagem foi consolidada, posteriormente, com signos de belezas naturais. Produtos típicos nacionais como o café, a caipirinha e a banana, os embalos do samba, e, claro, o futebol. Esses ingredientes ajudaram a formar a imagem de um destino ideal para quem procurava sol e mar, quase que exclusivamente de lazer.
 
A promoção pública, especificamente pelo governo federal, só começa de fato com a criação da Embratur, em pleno regime militar, no final de 1966. E durante muito tempo, o que se promoveu – e o convite era claro – pode ser traduzido por “venha tomar sol em nossas praias”. Tal estratégia funcionou durante décadas, mas também limitou as possibilidades que nosso país tinha de tornar o turismo um bem mais desenvolvido e rentável há mais tempo. Essa promoção, baseada no binômio “belezas naturais” e “sol e mar”, também se confundiu, algumas vezes, com o turismo sexual.
 
Uma ação emblemática desse período ocorre na década de 70, numa viagem do presidente Ernesto Geisel a Paris. No livro A Ditadura Encurralada, de Elio Gaspari, há a reprodução de um material de promoção do Brasil com a foto de uma modelo de sucesso na época, na praia, usando só a parte de baixo do biquíni, e cobrindo os seios com um coco verde. Essa imagem, hoje inconcebível, era promovida de forma natural pelo próprio governo.
 
O histórico de nossa promoção é marcado por um país que tinha no lazer a única forma de exibição no mercado. Essa estratégia funcionou até a década de 90. Desde então, a modernização da infra-estrutura do turismo (hotéis, aeroportos, centros de convenções), aliada à criação de marcos regulatórios, como a Lei da Cabotagem, fazem com que o setor possa finalmente entrar com outro peso no mercado internacional. O que isso significa?
 
Modelo chega ao limite: o que fazer? 
Com uma economia estável, regime democrático e cidades modernas, o Brasil torna-se um player com todas as condições de disputar espaço no mercado internacional. É capaz de lutar com a mesma força com destinos até então muito mais competitivos do que nós. É fundamental entender que o convite que durante décadas fizemos aos estrangeiros tinha atingido o seu limite. Para crescer, era necessário ampliar nossa oferta, entender melhor o atual consumidor e descobrir outras formas de vender nosso produto.
 
O primeiro desafio da Embratur, com o novo foco, é responder a duas questões. A primeira: que produto é este de que dispomos (qual nossa oferta e para qual público podemos vendê-la)? A segunda: como o país é visto pelos estrangeiros?
 
Ao longo de quase um século fincamos nossa bandeira lá fora nos apresentando, para qualquer consumidor, com um Brasil que nós conhecíamos – sem necessariamente ser um Brasil reconhecido por eles. Por isso, foi fundamental desenvolver um plano de marketing turístico internacional.
 
O Plano Aquarela 
Para iniciar o trabalho, em 2004, fomos aos 18 principais mercados emissores de turistas para o Brasil investigar como esses consumidores (desde o agente de viagens até o potencial turista) nos viam e qual era o desejo deles pelo nosso país. Seis mil pessoas foram entrevistadas, incluindo profissionais do trade brasileiro, durante quase um ano. O resultado do trabalho coordenado pela Chias Marketing, do consultor catalão Joseph Chias, foi o Brasil dispor, pela primeira vez, de um amplo mapa de como cada um desses países se comportava em relação a nós, com dados confiáveis para a Embratur formular uma política consistente e eficaz de promoção em cada um deles.
 
Isso mudou a forma como o governo federal sempre fez a propaganda do Brasil no exterior. A partir do início de 2005, quando o Plano Aquarela entrou em vigor, cada campanha, cada ação, passou a ser definida com base nessas pesquisas. Mais importante: com a cara que o público daquele mercado nos enxerga. O Brasil é diferente para franceses e espanhóis, e mais ainda para americanos ou asiáticos. É preciso que sejamos reconhecidos da maneira como eles nos vêem mais atraentes.
 
O Plano Aquarela surgiu também para dotar a Embratur de planejamento de curto, médio e longo prazos, identificando as reais necessidades de implantação de programas de trabalho e priorização de investimentos públicos. O perfil da Embratur, antes da criação do MTur, não permitia que a entidade tivesse foco no turismo internacional. A principal conseqüência foi justamente a falta de uma estratégia que atendesse às necessidades do Brasil como destino turístico mundial.
 
As ações da Embratur no mercado internacional eram caracterizadas por descontinuidade e por ações isoladas, que não compunham um mix de marketing consistente, resultado do desenho institucional inadequado e da ausência de planejamento financeiro que sustentasse uma estratégia de longo prazo.
 
A pesquisa realizada nos 18 mercados foi feita com operadoras que já vendiam e as que ainda não vendiam o produto Brasil. O universo composto pelos turistas também se subdividiu em dois perfis de público: os que não conheciam o Brasil e os que já conheciam o Brasil, sendo que a segunda categoria foi de extrema importância para subsidiar a construção da imagem e do posicionamento do país como produto turístico. Ao final da pesquisa, tivemos algumas definições fundamentais: posicionamento, mensagens e produtos principais por mercado, marca/slogan, definição de concorrência, definição de mercados prioritários, principais linhas de ação, levantamento de desejos dos clientes (intermediários e finais) e estabelecimento de metas por mercado.
 
Estratégias para os próximos dez anos 
O trabalho realizado vislumbrou estratégias e táticas de marketing para o Brasil nos próximos dez anos. Passamos a ter, de cada um desses 18 países, dados essenciais para a promoção, como a maneira que eles vêem o Brasil, o que mais gostam daqui, qual percentual da população realmente poderia ser seduzida a visitar nosso país, além de dados estratégicos como o volume de dinheiro necessário, a forma de investimento e a identificação dos concorrentes em cada um deles. Em resumo: a Embratur passou a ter informação confiável – sem “achismos” – para construir um programa eficiente de divulgação do Brasil nesses 18 países.
 
As pesquisas mostram que o visitante estrangeiro tem uma imagem positiva do Brasil. Depois da visita, ele reconhece como principais atributos do país o patrimônio natural e a alegria do povo, nesta ordem.
 
É importante notar que um dos maiores trunfos para a promoção é o poder de fidelização que nosso produto tem: 86% dos entrevistados disseram ter intenção de voltar e 99% recomendariam o destino para amigos. Em muitos dos mercados pesquisados, o nível de conhecimento sobre o Brasil é baixíssimo. Em nosso caso, essa é uma vantagem competitiva: é melhor construir uma imagem nova do que reverter uma imagem negativa.
 
A Marca Brasil e outros programas 
Do Plano Aquarela nasceu a Marca Brasil, símbolo da promoção internacional do país. Ela passa a representar a imagem do turismo brasileiro e de seus principais atributos de exportação no exterior. A Marca Brasil, desde o início, recebeu a adesão de vários outros segmentos econômicos, atitude fundamental para a sua consolidação. Hoje, mais de 350 empresas de exportação e 640 do nosso setor utilizam ou solicitaram o uso da logomarca. Ela está presente em produtos como café, biscoitos, e em toda a folheteria de promoção turística. Neste processo, a Embratur teve apoio da Apex-Brasil, que desempenhou papel fundamental na conscientização dos empresários brasileiros quanto à importância da nova marca.
 
Também foram definidos os cinco segmentos prioritários da promoção brasileira no exterior: Sol & Praia, Ecoturismo, Esportes, Cultura e Negócios & Eventos. Entretanto, esta decisão só ganha forma no final de 2004, quando o Plano Aquarela é concluído.
 
Antes disso, porém, vários programas foram implantados, e muitos deles já delineavam o que o plano de marketing iria confirmar. No redesenho da Embratur, por exemplo, foram definidas cinco diretorias: Turismo de Lazer e Incentivo; Turismo de Negócios e Eventos; Marketing; Estudos e Pesquisas; e Administração e Finanças. Nas duas primeiras – diretorias de frente, como eu chamo –, já havia o entendimento de que era necessário se debruçar sobre outros segmentos.
 
É importante destacar a questão da profissionalização. O redesenho institucional e as novas atribuições da Embratur exigiram a atração, para seus quadros, de profissionais do mercado que conhecessem em profundidade a dinâmica do setor. Foram eles que assumiram o compromisso de formular um novo modelo de gestão, juntamente com alguns experientes profissionais da casa.
 
Participação do Brasil em feiras triplicou, com foco em novos segmentos 
Dentro da diretoria de Turismo de Negócios e Eventos, uma novidade na promoção governamental, três gerências foram criadas: Eventos Promocionais, Turismo de Eventos e Turismo de Negócios. A primeira passou a cuidar das feiras internacionais de turismo, nas quais a Embratur participa desde os anos 80. Até 2002, o Brasil participava de 15 feiras por ano, em média, todas com foco em lazer, sem segmentos definidos. Essa agenda passou por uma reformulação a partir de 2003, o que significou uma importante ampliação no ano seguinte – chegando a 40 em 2005 e mantendo esse número, considerado ideal, em 2006.
 
Ela passou a contemplar mais mercados e, principalmente, segmentos como Negócios, Eventos e Incentivos, além de Ecoturismo, Golfe e Mergulho. Essa ação foi fundamental para mostrar o Brasil, naquele momento, para um público que desconhecia parte de nossas potencialidades.
 
Um caso específico – golfe, em que o nosso país não tinha qualquer tradição em feiras – ilustra o novo posicionamento. Participamos, pela primeira vez, em 2004, da IGTM (International Golf Travel Market), a mais importante do setor, junto com o Bureau de Golfe. Naquele ano, não tínhamos qualquer reunião agendada. Um de nossos profissionais buscou contatos no evento, mas foi praticamente ignorado. No ano seguinte, passamos a contar com uma equipe maior e tivemos 39 reuniões pré-agendadas. O crescimento e receptividade foram tão grandes que, em 2005, comparecemos com número recorde de co-expositores e tínhamos uma lista de espera de profissionais querendo conhecer nossos produtos.
 
Número de expositores também triplicou; custo do estande diminuiu 
Lançamos, a partir de 2003, a Agenda de Promoção Comercial do Turismo Brasileiro. Em parceria com a Federação Brasileira de Convention & Visitors Bureaux, foi criado um sistema on-line de inscrições, garantindo um processo transparente de participação nos eventos. O estande passou por uma primeira reformulação e os preços, que antes eram diferenciados para setores do turismo (companhias aéreas, operadores, secretarias de governo, etc), diminuíram, em média,  67%, estabelecendo um custo para quem participava em uma mesa ou em um módulo. Isso permitiu que mais cooperados pudessem participar. Em 2003, 383 co-expositores estiveram presentes nas feiras, número que pulou para 851 em 2004, 1.152 em 2005 e alcançou 817 apenas no primeiro semestre deste ano.
 
O estande do Brasil passou por uma total reformulação em 2005 – o espaço do país ganhou visual moderno e de fácil identificação dentro das feiras internacionais. Cada participação do Brasil passou a incorporar novas formas de seduzir o visitante, seja por meio de espaços visuais e de tato, seja com o incremento de manifestações culturais. Em alguns eventos a Embratur realiza uma Noite Brasileira, buscando aproximar ainda mais os profissionais e os potenciais clientes.
 
Foco na captação de eventos nos setores em que o Brasil possui excelência 
Outra estratégia de sucesso, esta executada pela gerência de Turismo de Negócios, foi estar presente nas feiras de setores em que o Brasil se destaca no exterior, como aviação, calçados e jóias.
 
Minha origem no setor é o turismo de negócios e eventos. Antes de trabalhar no Anhembi, em São Paulo, e na Embratur, passei pelo São Paulo Convention & Visitors Bureau. Durante muito tempo, em processos de captação de eventos, percebia uma falta de articulação entre o poder público e o setor privado para que o Brasil disputasse para valer esses eventos.
 
Desde 2003, a Embratur atua de maneira agressiva na captação de eventos internacionais de negócios. A idéia foi “colar” nas empresas exportadoras brasileiras que se apresentam no exterior, criando uma oportunidade de mostrar o Brasil além dos destinos de lazer. Oferecer, de maneira efetiva, aos empresários estrangeiros, a possibilidade de conhecer a indústria e a tecnologia nacionais, abrindo a eles mais opções de negócios e, ao mesmo tempo, incentivar o incremento da capacidade produtiva e de exportação do país. Criou-se, então, uma área exclusiva de captação e promoção de eventos internacionais.
 
Esta é uma atuação importante e decisiva para o turismo brasileiro – a qualidade e a quantidade de grandes eventos sediados por um país sinaliza seu grau de desenvolvimento. Um evento de porte gera milhões de dólares na economia, atingindo inúmeros setores. Em conjunto com os C&VB’s, a Embratur passou a ter uma política focada no apoio à captação e à promoção de eventos internacionais para o Brasil.
 
Trabalhamos na qualificação, no país inteiro, de profissionais que tivessem condições para lutar por um evento. Colocamos uma equipe profissional para ajudar secretarias e C&VB’s a preparar Bidding books e tudo o que fosse necessário para uma candidatura. Os resultados logo apareceram. De 2002 até 2005, passamos de 21° para 11° lugar no ranking ICCA (International Convention & Congress Association) em número de eventos, e alcançamos o 8° lugar no ranking por número de participantes. Isso significa uma vitória incontestável para o mercado brasileiro, que já é visto como um player de peso na disputa por eventos no planeta.
 
EBT’s: executivos brasileiros nos mercados-alvo 
Para que essas e outras ações fossem de fato eficientes, era preciso também que uma agência de promoção como a Embratur tivesse pontas-de-lança fincadas em alguns mercados estratégicos. Órgãos de referência em nosso setor, como a Maison de la France e a Turespaña, há décadas já tinham escritórios de representação em diversos países. E eles dispõem de mais funcionários trabalhando nesses escritórios do que no seu próprio país.
 
Esse processo começa no Brasil tardiamente, nas décadas de 80-90, mas em situações muito pontuais. A simples presença de um profissional ou mesmo equipe em outro país garante ações bem-sucedidas. A presença de um executivo em mercados-alvo tem de estar atrelada a uma agenda de promoção efetiva em cada local, sejam feiras, seminários e mesmo a disputa por um evento.
 
Num primeiro momento, montamos os Escritórios Brasileiros de Turismo (EBT’s) em seis centros econômicos da Europa (Frankfurt, Lisboa, Paris, Londres, Milão e Madri) e em Nova York. Em cada um deles, um executivo, profissional de mercado, coordenava as ações a partir de uma base. Para os países da América do Sul foi desenhado um modelo diferente, com base em Brasília. Com o apoio das embaixadas em nove países (Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai, Peru, Colômbia, Equador, Bolívia e Venezuela), foram criados os Comitês Descubra o Brasil, conduzidos por profissionais daqueles países que já vendem ou que têm interesse em trabalhar com produtos brasileiros. Em parceria com a JICA (sigla em inglês para agência de cooperação internacional do Japão), foi criado ainda um escritório de promoção conjunta dos países do Mercosul com sede em Tóquio.
 
Os EBT’s começaram a funcionar em 2004 e tiveram sua implantação finalizada em 2005. Durante quase dois anos foi possível aferir os resultados deste modelo e, a partir disso, chegar ao formato atual, mais ágil, de maior alcance e menos oneroso. Inúmeros canais foram abertos em cada mercado, possibilitando, por exemplo, que operadoras que não vendiam o Brasil incluíssem nossos destinos em seus catálogos. Companhias aéreas, com nosso apoio, passaram a oferecer novas rotas ligando os continentes. Esse primeiro passo consolidou a etapa que vivemos – hoje, os consultores responsáveis por cada mercado permanecem cerca de dez dias no Brasil em planejamento e partem para cumprir uma agenda fechada de 45 dias no exterior.
 
Nova fase: Trade Business Inteligence 
Com dados consistentes, percebemos que as novas tecnologias permitiam uma ação pró-ativa de nossos executivos – manter escritório, com telefone e secretária, perdia o sentido. Com computador e celular, o profissional brasileiro pode percorrer um país, sem ficar baseado numa cidade. Entra em funcionamento o Trade Business Inteligence (TBI). O novo modelo é marcado por uma agressiva aproximação do EBT com o mercado, em que os consultores criam e mantêm um relacionamento cotidiano com as maiores empresas de turismo dos países em que atuam. Essa relação com quem decide a venda do produto turístico permite ações cirúrgicas de promoção e apoio à comercialização do Brasil. Chega a quase 1.400 o número de empresas com as quais os EBT’s têm esse relacionamento.
 
Os dados confirmam o acerto da estratégia adotada:
• De acordo com a Polícia Federal, o número de turistas estrangeiros no Brasil passou de 3,78 milhões, em 2002, para 5,35 milhões, em 2005, um aumento de 41,59%.
• Os gastos deles no país quase dobraram, saltando de US$ 1,998 bilhão, em 2002, para US$ 3,861 bilhões, no ano passado (segundo o BC).
• Os desembarques internacionais, de acordo com a Infraero (Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária), pularam de 4,6 milhões, em 2002, para 6,8 milhões, em 2005 (dizem respeito a estrangeiros e também aos brasileiros em retorno ao Brasil).
Agora, entramos para valer na disputa pelos mercados. Até então, o Brasil não era visto como um player com musculatura suficiente para disputar espaço com outros concorrentes mais fortes. Os resultados passaram a incomodar o mercado, que vê o Brasil tirando clientes de outros destinos.
 
Caravana Brasil, Descubra o Brasil 
Outras ações correram paralelas aos programas já descritos e são fundamentais para entender os resultados alcançados. Na área do turismo de lazer e incentivo, era necessário qualificar quem vendia nossos destinos e ampliar a cesta de produtos.
 
A Caravana Brasil, ao longo de três anos, reuniu mais de 820 operadores, entre estrangeiros e brasileiros, num total de quase 100 viagens, para conhecer com profundidade nossa oferta. Durante alguns dias, os profissionais viam de perto produtos e destinos brasileiros, conversando com operadores locais e fechando negócios. Uma pesquisa mostrou que 85% dos operadores nacionais passaram, a partir daqueles encontros, a oferecer esses destinos em seus catálogos. Foi uma satisfação ver operadores brasileiros – com larga experiência em receptivo internacional – participando das caravanas para conhecer destinos que eles por anos venderam, mas nos quais jamais haviam colocado os pés.
 
O Descubra o Brasil – realizado em parceria com a Braztoa e a Infraero – consiste em promover apresentações sobre destinos brasileiros para operadores e agentes de viagens estrangeiros e reuni-los com nossos empresários em pequenas rodadas de negócios. Apenas no primeiro semestre deste ano – o programa existe desde 2004 – atingiu mais de 1.300 profissionais em 15 países.
 
Bureau de Comercialização, Melhores Experiências Internacionais 
Para organizar os segmentos de promoção no exterior foi criado um Bureau de Comercialização – fórmula simples que mostra como um órgão governamental, apenas conversando e articulando com os agentes econômicos, pode obter resultados fantásticos. Anteriormente, citei o Bureau de Golfe.
 
Este e outros segmentos – como ecoturismo, resorts (que já tinha associação própria), pesca e intercâmbio de estudantes – puderam se organizar e criar uma agenda, junto com a Embratur, de promoção de seus produtos. Se, por exemplo, temos em nosso calendário feiras nesses segmentos, quem melhor conhece e pode estar à frente das ações são exatamente esses profissionais.
 
Sem deixar de investir forte na qualificação e atualização de quem vende nosso produto lá fora, desenvolvemos um programa para levar profissionais brasileiros ao exterior e conhecer práticas de turismo de excelência. O projeto “Excelência em Turismo – Aprendendo com as Melhores Experiências Internacionais” é apoiado no conceito de benchmarking. A idéia é oferecer aos nossos profissionais a oportunidade de ver como destinos consolidados chegaram a um nível de excelência. Como resultado, promovemos viagens a países que têm expertise em ecoturismo (Costa Rica), cultura (Espanha) e aventura (Nova Zelândia), para ficar em alguns exemplos. No ano passado, dez operadores das cinco regiões brasileiras participaram em seis viagens. Eles depois têm o compromisso de multiplicar o conhecimento, reproduzindo a um sem-número de colegas as lições aprendidas.
 
Todas essas iniciativas foram realizadas de forma simultânea com o plano de marketing. Isso permitiu uma ação consistente e contínua nos principais mercados.
 
Investimentos em Internet e relações públicas 
Ferramentas muito utilizadas por países que têm o turismo como um importante vetor de sua economia – como Espanha, África do Sul ou Turquia – são as ações de relações públicas e de uso da Internet, com grande impacto e custo reduzido. Fizemos grandes investimentos para criar um portal moderno com variados mecanismos de relacionamento com o trade e com o público final. Por exemplo: nas próximas semanas estará disponível um treinamento de agentes on-line, algo inovador na promoção brasileira.
 
Desde janeiro temos duas empresas de Relações Públicas contratadas, presentes nos mercados em que atuamos, buscando estreitar relacionamento com profissionais de turismo e com a imprensa. Por meio de ações de oportunidade, como fizemos durante a Copa do Mundo, na Alemanha, e durante o Rock in Rio em Lisboa, obtivemos resultados mais consistentes com esse público. Numa campanha com links patrocinados no Google, um dos mais importantes sites de busca do mundo, num único mês o Portal do Turismo Brasileiro registrou a visita de 165.846 internautas, um aumento de 120%.
 
Números confiáveis para o mercado 
Por fim, muitos dos números e resultados que colocamos à disposição agora, fruto da área de Estudos e Pesquisas da Embratur, têm ajudado nosso setor a planejar melhor suas atividades. Desde 2004, divulgamos trimestralmente o Boletim de Desempenho Econômico, realizado em conjunto com a Fundação Getúlio Vargas, que funciona como um termômetro da atividade econômica do turismo no Brasil. Outras 11 pesquisas municiam o setor regularmente, como a inédita Estrutura de Consumo e Impacto, de áreas específicas da cadeia produtiva do turismo (neste ano divulgamos dados sobre meios de hospedagem), e a tradicional Demanda Turística Internacional, que sofreu considerável ganho qualitativo nos últimos anos.
 
O jogo começa agora: temos time para vencer 
A promoção do Brasil atingiu um patamar inédito. Temos a oportunidade, com o conhecimento adquirido nos últimos anos, de utilizar esta inteligência comercial para traçar estratégias que multipliquem os resultados obtidos. Entretanto, não nos deixemos enganar – somente agora o jogo começa para valer. O Brasil, com o esforço realizado pela Embratur, conseguiu ganhar o campeonato da segunda divisão. Somos vistos, enfim, como adversários respeitáveis. Na próxima etapa, a concorrência será mais dura, e os desafios mais difíceis: é briga de gente grande.
 
1 Desligou-se da Embratur em agosto/2006 – assumindo a Reed Exhibitons – para concorrer à presidência da ICCA (International Congress and Convention Association).
 
2 Referimo-nos às políticas públicas de turismo, sem avaliações de como a iniciativa privada se apresenta no exterior.


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