No âmbito global, o ano de 2005 registrou um crescimento de 5% nos negócios do turismo. O destaque ficou com a Ásia e a Oceania, onde a expansão foi de 7% – mesmo com a tragédia da Tsunami. No Brasil, crescemos ainda mais e a expectativa da Embratur é uma expansão de 16% para o setor em 2006, excepcional se concretizada, pois ficará muito acima dos índices internacionais.
O aumento da importância do país no cenário internacional se reflete positivamente no mercado interno. Cada vez mais o brasileiro quer e tem acesso às ofertas de novos produtos, forçando uma adequação ao seu perfil, principalmente em dois quesitos: preço e condições de pagamento.
Estes excelentes indicadores mostram que estamos no caminho certo. Ainda há, porém, uma grande estrada a percorrer, e muitas oportunidades a explorar, se quisermos fazer a indústria do turismo brasileiro crescer a ponto de concorrermos, em pé de igualdade, com os principais mercados mundiais.
A redescoberta do Brasil pelo turista estrangeiro
Um dos indicativos de que o panorama para o Brasil é promissor está no número de desembarques de vôos internacionais nos aeroportos do país. Ele aumentou cerca de 11% no ano passado. Os estrangeiros vieram em maior número e gastaram mais: foram 5,4 milhões, com despesas da ordem de US$ 3,8 bilhões¹.
Embora 36,7% destes turistas tenham escolhido como destino o Rio de Janeiro, na Europa a grande vedete do turismo brasileiro no momento é o Nordeste. Prova disso é que já existem vôos diretos com rotas surpreendentes, como fretamentos que saem da Suécia com destino a Natal (RN). Este tipo de turista, em especial o europeu, procura muito os resorts, cujos preços ainda estão um pouco fora do padrão de renda do brasileiro médio. Ainda assim, a demanda por este tipo de hospedagem justifica os investimentos.
Importante ressaltar: o incremento de rotas com destino ao Nordeste aproxima o Brasil da Europa, na medida em que o tempo de vôo é reduzido praticamente à metade em relação aos aeroportos de Rio de Janeiro e São Paulo.
O interesse dos europeus não pode nos deixar desatentos em relação aos nossos vizinhos do Mercosul. A CVC já está com operação no Uruguai. No feriado da Semana Santa, por exemplo, 623 uruguaios partiram de Montevidéu, em fretamentos, para Porto Seguro (BA), Angra dos Reis (RJ), Fortaleza (CE), Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo, ou de carro, a partir da Serra Gaúcha.
Esta afluência de estrangeiros tem ajudado a superar o mito de que turismo é um bem de consumo supérfluo restrito a pessoas muito abastadas, sobretudo se a viagem for feita de avião. Cruzeiro marítimo, então, só para milionários.
Hoje, a percepção é outra. O mercado está em plena expansão e ganha a importância que merece como gerador de empregos, divisas e renda. Dados concretos comprovam o bom momento: um em cada dez brasileiros trabalha direta ou indiretamente num dos 52 setores econômicos movimentados pelo turismo, que representa 4% do nosso Produto Interno Bruto (PIB).
O brasileiro também viaja, e muito!
Não tenho dúvida de que o passo essencial para ampliarmos a nossa indústria turística é a universalização das viagens dentro do país. Mais de 50 milhões de brasileiros (um quarto do total da nossa população!) realizaram viagens domésticas em 2005, o que obrigou o mercado a perceber a necessidade de ofertar pacotes adequados ao bolso do cidadão, com pagamento facilitado em parcelas sem juros.
A guerra das tarifas aéreas e os fretamentos permitiram uma queda no custo das viagens e beneficiaram os consumidores em geral. Atualmente, o nosso setor segue a mesma política comercial praticada, por exemplo, pelas operadoras de celulares, que já conquistaram mais de 65 milhões de brasileiros e, rotineiramente, criam promoções e facilidades.
Uma ampla pesquisa divulgada recentemente pelo MTur, realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), ouviu moradores de 30 mil domicílios urbanos, representando um universo de 100 mil pessoas em todas as regiões do Brasil, com renda entre um e mais de 30 salários mínimos. Os números são surpreendentes, estimulantes e apontam um rico nicho a ser explorado.
Conforme os dados, de cada dois brasileiros, um viaja, para o exterior ou para destinos domésticos, esporadicamente ou com freqüência. E ainda: dois em cada três viajantes que escolhem ir ao exterior estariam dispostos a visitar um destino doméstico se encontrassem situação mais propícia. Para que isso ocorresse, segundo os entrevistados, seria preciso a confluência de quatro fatores principais: preços mais acessíveis (27,9%), mais segurança (11,9%), informações mais precisas (8%) e serviços turísticos de melhor qualidade (7,7%). Dos que responderam que nada os faria mudar de idéia (que não trocariam uma ida para fora do Brasil por algum destino doméstico), apenas 1,2% declararam falta de interesse. Este é um dado valiosíssimo, prova de que o brasileiro tem muita vontade de conhecer o próprio país.
Com esta mesma pesquisa, que comparou dados de 2006 e 2002, foi possível traçar um perfil do brasileiro que realiza viagens domésticas. Este turista em particular faz de uma a três viagens por ano, com permanência média de dois e três pernoites, sobretudo no período das férias de verão, em busca de sol e praia ou em visita a amigos e parentes. Em quatro anos, aumentou quase 25% o volume dos que recorrem ao carro particular para a viagem e 20,8% ao avião, roubando público dos ônibus de linhas regulares.
Aeroporto, hotel, comodidades...
O aumento da “qualidade” das viagens é confirmado pela maior utilização de hotéis, pousadas ou imóveis alugados em detrimento da casa de parentes. Ao programar a sua viagem, o passageiro dá preferência às agências para adquirir pacotes e passagens aéreas. No entanto, costuma comprar hospedagem, aluguel de carros e, sobretudo, passeios e atrações turísticas diretamente no local.
A melhoria das condições de vida dos brasileiros deve levar as pessoas a planejarem cada vez mais suas viagens. E ajuda a explicar o sucesso dos cruzeiros marítimos, que na próxima temporada serão oferecidos em mais de dez navios em todo o país.
Quanto ao fluxo de deslocamento, há uma predominância de viagens intra-estaduais ou intra-regionais, sendo que o estado de São Paulo é o maior emissor e o maior destino e o Sudeste a maior região emissora e receptora. Essas viagens consistem num grande filão que ainda não foi suficientemente explorado pelas empresas.
Até porque as classes C, D e E também viajam bastante. Segundo dados de um estudo feito pelo Instituto Brasileiro de Administração Municipal e o Data Popular, os consumidores dessas classes movimentaram R$ 3,8 bilhões em 2003. O estudo do comportamento desses extratos mostra características distintas, como o pagamento à vista (92% dos casos) e a hospedagem em casas de parentes (62% dos casos).
Precisamos de criatividade para realizar o gigantesco potencial refletido nas diferentes pesquisas e aproveitar este momento favorável por que passa o turismo brasileiro. Não é por outra razão que a CVC, neste ano, conseguiu lançar pela primeira vez uma tabela com mais de 12 meses de antecedência, permitindo ao turista planejar de forma antecipada suas viagens.
Um exemplo da profissionalização do mercado
Além de conseguir antecipar a agenda e adaptar os preços ao bolso do consumidor, outros aspectos devem ser considerados, como a oferta de maior diversidade de destinos, produtos e roteiros. Nosso setor precisa ser sensível às tendências, levando em consideração custo-benefício e variedade. Temos espaço para receber e enviar o turista que busca roteiros econômicos, bem como atender o público de alto poder aquisitivo que busca viagens e destinos exclusivos.
Essa variedade supõe sair da mesmice. Pessoas que já viajaram ao exterior conhecem as principais cidades européias e os Estados Unidos. Por que não sugerir-lhes destinos na África do Sul, Ásia ou cidades da Europa fora do circuito mais tradicional, como na Escandinávia ou na Rússia? Da mesma forma, os estrangeiros que aproveitam e gostam do nosso país já estiveram no Rio de Janeiro ou nas praias mais famosas do litoral nordestino, mas podem ter suas opções enriquecidas com roteiros para outras cidades do Nordeste ou destinos de ecoturismo, alguns desconhecidos até pelos brasileiros.
O esforço de tornar o Brasil conhecido, tanto para o público externo como para o interno, tem sido abraçado pelo setor privado e pelo governo. Eventos como o Ano do Brasil na França colaboram para reforçar a imagem do país, mostrando que temos muito mais opções a oferecer além das já conhecidas excelências no futebol e no samba. Recentemente, um grupo de operadores que fazem receptivo internacional foi a Teresina, abrindo caminho para a promoção de destinos do Piauí em terras estrangeiras, dentro do projeto Caravana Brasil, executado pelo Ministério do Turismo em conjunto com a Embratur. Durante o 2º Salão Brasileiro de Turismo, em junho passado, em São Paulo, ocorreu o lançamento de roteiros regionais integrados em conjunto com os órgãos governamentais e a iniciativa privada.
É louvável, ainda, o esforço do governo na realização do Plano Nacional de Turismo 2004/2007. O plano prevê a geração de 1,2 milhão de novos empregos e o recebimento de 9 milhões de turistas estrangeiros ao ano, com a geração de US$ 8 bilhões em divisas. É bom lembrar que até o ano passado recebemos 5,4 milhões de turistas de fora do país, que geraram US$ 3,8 bilhões. Em relação ao turismo nacional, a meta é ampliar para 65 milhões o total de turistas domésticos, sendo que no ano passado 50 milhões já viajaram. É possível que, no início de 2008, os números realizados se aproximem dos objetivos fixados.
Entretanto, para que tudo corra bem, é fundamental que a indústria do turismo tenha acesso a mais linhas de financiamento, a fim de garantir o fôlego necessário para o lançamento de novos produtos e, assim, ampliar a oferta. São necessários também investimentos na melhoria da infra-estrutura hoteleira, das estradas e da malha aérea. Isso porque, embora os fretamentos das operadoras e a entrada de novos players ajudem a movimentar o mercado, ainda há gargalos nos aeroportos durante a alta temporada e nos grandes feriados.
Há um longo caminho a ser percorrido, como ponderei no início deste artigo, mas é fato que tanto a iniciativa privada quanto o governo federal estão agora dando a atenção que o setor sempre mereceu. Portanto, caro leitor, esta é a hora de aproveitar o bom momento, viajar e conduzir bons negócios. Ou você vai perder a oportunidade?
O Brasileiro Está de Malas Prontas
1 em cada 2 brasileiros viaja.
Faz de uma a três viagens por ano.
Permanece no destino dois ou três pernoites, em média.
Viaja mais durante o verão.
Principais motivos da viagem: lazer ou visita a amigos e parentes.Fonte: Fipe/Ministério do Turismo
2 em cada 3 brasileiros trocariam uma viagem ao exterior por um destino no Brasil se... Os preços fossem mais acessíveis 27,9%
Houvesse mais segurança 11,9%
Encontrassem informações mais precisas 8,0%
Os serviços turísticos tivessem melhor qualidade 7,7%Fonte: Fipe/Ministério do Turismo
1 Outra informação importante é que a prolongada fase de baixa do dólar tornou ainda mais viável o sonho do brasileiro de conhecer um outro país. O fluxo cresceu 69% em 2005 e os gastos chegaram a US$ 4,7 bilhões, segundo o Banco Central. Só a CVC embarcou mais de 100 mil turistas em 2005.