Em Santa Catarina, temos semeado. Com a presença destacada em feiras, congressos e eventos turísticos programados pelo Ministério do Turismo, pela Embratur e pela Secretaria de Estado da Cultura, Turismo e Esporte, a Santur e o trade vêm fazendo um notável trabalho de semeadura. Maior que as dificuldades superadas – entre as quais o contingenciamento orçamentário e a incompreensão de alguns setores sobre a importância econômica do turismo –, foi a vontade política do ex-governador, Luiz Henrique da Silveira1, e do atual, Eduardo Pinho Moreira, além da dedicação dos nossos profissionais. Com apoio efetivo do governo e do setor privado, tem sido possível progredir.
Entre os avanços, destaco o ingresso de Santa Catarina como destino turístico no mercado dos Estados Unidos.
Estar presente nas prateleiras de ofertas das agências de turismo norte-americanas exigiu pesquisa, esforço, dedicação, conhecimento, bons argumentos e uma dose de sorte.
Só demos início a esta empreitada porque acreditamos que Santa Catarina está preparada. Os profissionais do setor têm boa qualificação e estão em constante aperfeiçoamento. Realizamos o mais profundo e completo processo de regionalização turística feito por um estado brasileiro. Santa Catarina e algumas de suas cidades estão em primeiro lugar no imaginário de grande parte dos brasileiros de outros estados e de países vizinhos. Então, avaliamos ser o momento apropriado para Santa Catarina buscar novos mercados, em especial aqueles com os quais já há afinidades, como o europeu (especialmente Portugal, Espanha, Alemanha e Itália), mas também aquele que apresentou maior potencial e vantagens econômicas: o norte-americano.
Identificar oportunidades
Para conhecer o terreno, realizamos diferentes estudos e pesquisas2, entre elas uma dirigida a seis mil agentes de viagens, operadores e turistas, para avaliar como deveríamos apresentar Santa Catarina lá fora.
O resultado revelou uma oportunidade: buscar as operadoras que já vendiam viagens para o Sul do continente americano. Nossa estratégia passou a ser convencê-las a incluir Santa Catarina como escala nos roteiros que já tinham Rio de Janeiro, Foz do Iguaçu e Buenos Aires em seus pacotes comerciais.
Uma de nossas descobertas foi a necessidade de Santa Catarina se dissociar da imagem de lugar inseguro com a qual o Brasil é visto pelos norte-americanos. Segundo o diretor de uma das pesquisas, James Grunke, para o cidadão médio daquele país o Brasil é formado apenas por Rio de Janeiro e São Paulo. Então, mostramos que Santa Catarina é um lugar diferente, com outra realidade, grande diversidade geográfica e histórica, boas opções de lazer e melhores índices de qualidade de vida, educação, saúde, expectativa de vida, distribuição de renda, desenvolvimento econômico, segurança e limpeza. Esse último item é importante na avaliação do turista norte-americano.
Outra descoberta foi que a concorrência é dura: os destinos preferenciais dos americanos são a Austrália, o Reino Unido e a Nova Zelândia, locais com muitas opções de lazer, equipamentos turísticos excelentes e o inglês como idioma comum. Dos três, somente o Reino Unido (Inglaterra, Escócia e País de Gales) perde para Santa Catarina no quesito praias. Esta é uma informação relevante: o Reino Unido recebe 13,8% de todos os turistas norte-americanos que viajam ao exterior.
Criar relacionamentos
Sabendo quem era nosso público, como falar com ele e o que dizer, decidimos criar uma ponte comercial entre Santa Catarina e o Estado da Califórnia³.
Em maio de 2005, recebemos uma missão comercial integrada por 40 executivos californianos, que prospectou oportunidades de investimento e formação de joint-ventures em Santa Catarina. A missão ao Brasil incluiu executivos de empresas de alta tecnologia, como Cisco Systems, Intel, Sun Microsystems, Sybase e Hewlet-Packard, entre outras, e de turismo, como a NBTA (National Business Travel Association). Participaram também autoridades influentes do Northern California World Trade Center, do Serviço Comercial dos Estados Unidos, do Senado Californiano e da California State University, East Bay.
Em agosto de 2005, fizemos o caminho inverso. Participamos da Convenção Anual da NBTA e do Trade Show, no Centro de Convenções de San Diego. Na agenda da comitiva, liderada pelo governador, participamos de rodadas de negócios para estreitar as relações, estimular a vinda de turistas americanos e apresentar aos empresários as diversas oportunidades de investimentos no segmento turístico do Estado.
De lá para cá, construímos alianças estratégicas com dezenas de operadoras e agências de turismo. Além disso, encurtamos caminho, mantendo contato com a Ustoa (United States Operators Association), entidade que congrega as operadoras americanas.
Em abril de 2006, acompanhados de José Martin Desmaras, do IBI (Internacional Business Institute), percorremos Nova York, Orlando, Tampa, West Palm Beach e Miami, qualificando operadores e agentes de viagem sobre como proceder para vender com maior eficiência os destinos catarinenses. Nesses momentos de trabalho e aprofundamento de relações e conhecimentos mútuos, fomos ajudados pela sorte: José Martin Desmaras, do IBI, é um exímio ator, impecável em seu papel de mestre de cerimônias, ímpar na arte de “vender” Santa Catarina aos americanos. O imponderável colocou um show man no nosso time, capaz de quebrar o gelo da platéia com esquetes interativos. Seu entusiasmo por Santa Catarina envolve a todos.
Já como resultado desta nossa peregrinação, o governo do Estado assinou protocolos com oito operadoras americanas: Sita World Travel, Traveland, Brendan Vacations, Value Vacation, Jet Brazil LLC, Latour, Ensemble Travel Group e Sunny Land Tours. Um exemplo sintetiza o que está para acontecer: a Brendan Vacations é tão grande que possui gráfica própria. Edita publicações com reportagens sobre seus pacotes turísticos, destinadas às agências com as quais opera nos Estados Unidos e no Canadá. Em agosto deste ano, as publicações vão estampar Santa Catarina, com grandes tiragens. Trata-se de uma mídia fantástica, impagável. Em novembro, o produto Santa Catarina será apresentado, durante um grande evento, às operadoras que mantêm parceria com a Brendan.
Nada substitui o contato pessoal
Promover o turismo significa se deslocar em busca dos clientes. Em todas as nossas viagens levamos material de divulgação de excelente qualidade, nos idiomas dos países visitados. Não existe mágica que atraia o turista sem esse trabalho de peregrinação, de convencimento.
Constantemente sou alvo de críticas na mídia porque viajo bastante. Viajar, para executivos do setor público de turismo, é parte essencial do trabalho. Apesar disso, há questionamentos sobre a necessidade ou oportunidade de viagens que realizamos e sobre os gastos com as mesmas. Sem preocupação, entretanto, em avaliar se os resultados obtidos compensam os investimentos e a despesas. Ou em consultar o trade para saber sobre sua satisfação com essas ações.
Diante dos resultados obtidos e da atuação transparente, as críticas se esvaem. Importante é que o turismo tem “data”; não podemos nos deixar desanimar pela letargia burocrática da máquina pública.
Precisamos convencer a sociedade de que o turismo é o grande gerador de emprego e distribuidor de renda. É uma forma de aproximar pessoas de religiões e culturas diferentes, tornando o mundo mais humano. O turismo deve ser entendido, além de uma oportunidade fundamental para o nosso desenvolvimento econômico sustentável, como uma poderosa ferramenta de inclusão social.
Plantamos as sementes do futuro
Quem semeia, colhe. A Bahia fez uma bela semeadura e hoje colhe os bons frutos, justamente merecidos. Ressalte-se, na trajetória de crescimento do turismo na Bahia, que a participação da iniciativa privada tem sido preponderante: a cada US$ 1 de investimento público correspondem US$ 2.3 de investimentos privados. Um detalhe: a receita anual da Bahiatursa é cerca de dez vezes maior que a da Santur.
Santa Catarina haverá de chegar lá... As sementes do futuro estão lançadas. Não sei exatamente quantos passos foram dados em direção ao objetivo estabelecido inicialmente. Sei que trabalhamos bastante. E posso assegurar que a distância que separa a Bahia de Santa Catarina, no que se refere ao turismo, diminuiu de forma significativa nos últimos quatro anos.
1 Luiz Henrique da Silveira renunciou ao governo estadual em julho passado para concorrer à reeleição.
2 Primeiro, foi realizado o Estudo de Segmentação e Análise de Penetração Estratégica no Mercado Americano, um convênio da Santur com a Fundação Educacional Regional Jaraguaense (FERJ), o Centro Universitário de Jaraguá do Sul (UNERJ) e a California State University, Hayword, que fez ainda uma Análise do Segmento da Indústria de Turismo do Globatur (Programa Global de Consultoria Estratégica). Em seguida, foi criado o Projeto de Atração de Turistas Norte-Americanos e de Investimentos Diretos Estrangeiros no Segmento de Turismo em Santa Catarina.
3 Resultante de um Programa de Ações Integradas promovido pelo governo catarinense em parceria com o International Business Institute of the Américas (IBI).