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Turismo & Cia.

Turismo e inclusão social

O turismo é uma forma eficiente de reaproximar o Primeiro-Mundo-Internacional-dos-Ricos e o Arquipélago-Social-dos-Pobres. O setor é o que mais emprega mão-de-obra com níveis diferenciados de qualificação. Mesmo com a modernização e o avanço té

Cristovam Buarque - Professor da Universidade de Brasília e Senador (PDT/DF)

“A Cortina de Ferro que separava o mundo pela ideologia foi derrubada. Essa foi uma grande conquista para o turismo, pois possibilitou a ampliação do intercâmbio global. Mas ela foi substituída pela Cortina de Ouro, que não separa países, mas pessoas. O turismo precisa da inclusão social como condição para se desenvolver. O comércio cresce em shoppings, as indústrias nas fábricas. O turismo, com a exceção de alguns resorts, só se desenvolve se os turistas puderem caminhar sem a ameaça da violência, os constrangimentos da pobreza, as fronteiras sociais, os riscos de doenças endêmicas.”

O mundo moderno é um sistema de apartação social – unifica os ricos do mundo e os separa dos pobres. O crescimento econômico, aliado à globalização, ao avanço técnico e à integração comercial, aproxima as pessoas, mas ao mesmo tempo amplia a distância entre elas. As pessoas se locomovem com facilidade de um país para outro, mas têm medo de dobrar as esquinas, nas grandes cidades. No mundo de hoje, a parte integrada tem um único ponto de vista cultural, econômico, é um verdadeiro Primeiro-Mundo-Internacional-dos-Ricos. Nele, os habitantes circulam em um intenso turismo. Separados deles, os pobres do mundo formam um Arquipélago-Social-dos-Pobres porque, ao contrário dos ricos, os pobres do mundo são diferentes entre si, às vezes até dentro de um mesmo país.

Separando o Primeiro-Mundo-Internacional-dos-Ricos do Arquipélago-Social-dos-Pobres, serpenteia uma Cortina de Ouro, cortando cada país, dividindo o planeta em uma parte rica, de cerca de um bilhão de pessoas, e uma parte pobre, de cerca de 5 bilhões. A Cortina de Ferro que separava o mundo pela ideologia, e tanto dificultava o intercâmbio de pessoas, foi derrubada. Essa foi uma grande conquista para o turismo, pois possibilitou a ampliação do intercâmbio turístico internacional. Mas ela foi substituída pela Cortina de Ouro, que em vez de separar países, separa pessoas.

Nesse contexto, o turismo tem papel fundamental e surpreendente, já que promove a aproximação entre as pessoas. Além disso, é um dos setores modernos que mais emprega mão-de-obra com níveis variados de qualificação. Nos demais setores modernos da economia global, o avanço técnico tende a gerar desemprego. Quando se desenvolve, mesmo contando com a modernização de equipamentos, o turismo continua incorporando mão-de-obra, seja qual for a sua formação. As atividades turísticas têm um perfil de trabalhador que engloba todos os níveis de qualificação, desde as mais sofisticadas pós-graduações até as mais simples experiências. Portanto, podemos afirmar que o turismo integra culturas e negócios, e gera inclusão social. A atividade ignora fronteiras políticas e geográficas, culturais e comerciais, e ajuda a derrubar a fronteira social que separa a população pobre da rica, porque emprega mão-de-obra excluída.

Incluir para desenvolver

Ainda mais, diferentemente de outros setores, o turismo precisa da inclusão social como condição para seu desenvolvimento. Porque os demais setores podem fazê-lo isoladamente. O comércio cresce em shopping centers, as indústrias em suas fábricas. O turismo, com a exceção de raros casos de resorts, só se desenvolve plenamente se os turistas puderem caminhar nas ruas sem os riscos da violência decorrente da desigualdade, sem os constrangimentos da pobreza, sem as fronteiras sociais, com uma população educada que fale vários idiomas, sem os riscos de doenças endêmicas. Mesmo um resort perde qualidade quando seu entorno não apresenta atrativos, ou é impossível de ser freqüentado.

O turismo ajuda a reduzir a desigualdade – ao mesmo tempo, necessita dessa redução para se desenvolver plenamente. Por isso, os que trabalham com o turismo deveriam se envolver plenamente na luta pela solidariedade social, tanto em escala mundial como dentro de cada país. Isso pode ser feito de duas formas. Politicamente, pressionando pela formulação de políticas públicas que beneficiem a população e ao mesmo tempo repercutam favoravelmente na dinamização do turismo, como nas áreas de educação, saúde, água, saneamento, combate ao turismo sexual. Solidariamente, realizando campanhas, como as que já são feitas em diversas redes de hotéis e companhias aéreas em favor do Unicef. Além disso, hotéis e outras unidades do turismo podem beneficiar habitantes locais, entre os quais alguns deslocados pela construção de hotéis, ou ambulantes que tiveram suas vendas reduzidas por causa do serviço interno dos hotéis. O turismo merece investimentos feitos com seriedade. Temos belezas naturais inigualáveis, abundância de sol, atrações culturais e culinárias de uma variedade incomparável. Além de um povo belo, acolhedor, cativante. O Brasil tem vocação para o turismo. Pode e deve transformá-lo num dos principais vetores de crescimento econômico e inclusão social. &


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